Por Alessandro Vittorio Romano — Uma luz suave atravessa a janela da clínica quando, pela primeira vez em anos, pais e crianças encontram motivo para respirar com mais calma: um anticorpo específico mostrou capacidade de reduzir pela metade os episódios de enxaqueca em pacientes pediátricos. O achado vem do estudo internacional SPACE, que contou com a participação do IRCCS San Raffaele de Roma e foi publicado no New England Journal of Medicine.
A molécula em questão, Fremanezumab, é um anticorpo monoclonal direcionado ao peptide relacionado ao gene da calcitonina — o CGRP — e recebeu, em agosto passado, a aprovação da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos para uso pediátrico. Trata-se da primeira terapia anti-CGRP autorizada para prevenção da enxaqueca tanto em adultos quanto em crianças. Atualmente, o processo de avaliação para liberação na Europa está em andamento.
No estudo SPACE, 237 jovens entre 6 e 17 anos com enxaqueca episódica foram acompanhados. Após apenas três meses de tratamento, mais da metade dos participantes apresentou uma redução na frequência dos ataques de pelo menos 50%. Além disso, os pesquisadores não registraram eventos adversos relevantes, segundo Piero Barbanti, coautor do trabalho, diretor da Unidade para a Cura e a Pesquisa em Cefaleias e Dor do IRCCS San Raffaele e professor de Neurologia na Universidade San Raffaele. “Um resultado impensável até poucos anos atrás”, declarou Barbanti, ressaltando o impacto potencial na qualidade de vida das famílias.
Para quem convive com a enxaqueca infantil, cada ataque é um pequeno inverno que congela rotinas: aulas perdidas, brincadeiras interrompidas, sono abalado. A chegada de uma opção preventiva com perfil de segurança favorável funciona como a promessa de um despertar mais estável — não elimina todas as tempestades, mas pode reduzir sua frequência e intensidade, permitindo que as raízes do bem-estar voltem a se firmar.
Os resultados do SPACE tornam-se ainda mais relevantes quando pensamos nas limitações das terapias disponíveis até aqui para a população pediátrica. Tratamentos preventivos eficazes e bem tolerados eram escassos; a ação específica sobre o CGRP abre um caminho dirigido, quase como guiar um rio para irrigar novos hábitos saudáveis sem sobrecarregar o terreno.
Especialistas destacam, porém, a necessidade de acompanhamento a médio e longo prazo para mapear efeitos duradouros e eventuais sinais que só emergem com o tempo. Além disso, a disponibilidade da medicação na Europa dependerá da conclusão das avaliações regulatórias em curso.
Para pais e cuidadores, a notícia pede uma mistura de prudência e esperança: consultar um neurologista pediátrico é o passo essencial para entender se Fremanezumab pode ser uma opção adequada, considerando o perfil clínico da criança e alternativas terapêuticas. Em paralelo, manter hábitos que favoreçam o equilíbrio — sono regular, alimentação adequada, redução do estresse e atenção aos gatilhos — continua sendo a colheita diária que sustenta qualquer intervenção farmacológica.
Em suma, o estudo traz um sopro de renovação para quem vive com enxaqueca na infância: um anticorpo que promete reduzir ataques e devolver ritmo aos dias, como a respiração tranquila de uma cidade ao amanhecer.






















