Por Alessandro Vittorio Romano – Em uma descoberta que mistura a simplicidade de um gesto clínico com a profundidade das estações internas do corpo, pesquisadores canadenses identificaram que um exame de sangue pode antecipar o surgimento da doença de Crohn anos antes da aparição dos primeiros sintomas. Publicado na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology, o estudo conduzido pelo Lunenfeld-Tanenbaum Research Institute do Sinai Health, em Toronto, sob a liderança de Ken Croitoru (com participação de Richard Wu e Sun-Ho Lee, do Mount Sinai Hospital Centre for Inflammatory Bowel Disease), abre caminho para um diagnóstico precoce e para estratégias futuras de prevenção direcionada.
O segredo revelado pelo sangue é uma resposta imune anômala a uma proteína bacteriana intestinal conhecida como flagelina. O teste detecta anticorpos dirigidos contra um domínio conservado da flagelina produzida por bactérias comensais da família Lachnospiraceae, habitantes habituais do intestino humano. Níveis elevados desses anticorpos mostram, segundo os autores, uma alteração precoce no diálogo entre o microbiota intestinal e o sistema imunológico — uma mudança que pode ser a semente do processo que levará, mais adiante, à doença.
A doença de Crohn é uma condição inflamatória crônica do trato gastrointestinal que traz consigo sintomas como dor abdominal, diarreia persistente, fadiga e perda significativa na qualidade de vida. A incidência global está em alta; nos países ocidentais, os casos pediátricos chegaram a dobrar desde os anos 1990. No Canadá, estima-se que até 2035 cerca de 470.000 pessoas viverão com uma doença inflamatória intestinal. Hoje, os tratamentos conseguem controlar inflamação e sintomas, mas ainda não evitam o aparecimento da doença nem oferecem cura definitiva.
O trabalho integra o projeto internacional GEM (Genetic, Environmental and Microbial), iniciado em 2008 e coordenado por Croitoru, que acompanha mais de 5.000 parentes de primeiro grau de pacientes com doença de Crohn, inicialmente saudáveis, reunindo dados genéticos, biológicos e ambientais. Essa coorte singular permitiu observar as fases que antecedem o início clínico da doença: até agora, 130 participantes desenvolveram Crohn durante o seguimento, proporcionando uma rara janela para o período pré-clínico.
Na análise com 381 parentes de primeiro grau, dos quais 77 foram posteriormente diagnosticados com Crohn, os pesquisadores notaram que mais de um terço dos futuros pacientes apresentavam, já anos antes, uma resposta anticorpal elevada contra a flagelina. Em média, o intervalo entre a coleta sanguínea e o diagnóstico clínico foi de cerca de dois anos e meio. A associação mostrou-se especialmente marcante entre irmãos, o que aponta para um papel relevante de fatores ambientais compartilhados além da predisposição genética.
Para mim, observador dos ritmos e das estações da vida italiana, essa descoberta soa como a esperança de enxergar o broto antes que a árvore adoeça: detectar os sinais tênues do corpo — a respiração alterada do microbioma e do sistema imune — pode permitir colher hábitos e intervenções no momento certo. Ainda há passos a dar antes que esse exame de sangue se transforme em rotina clínica, mas a pesquisa ilumina um caminho onde prevenção e cuidado se encontram, como uma paisagem que desperta depois de uma noite longa.
Enquanto as terapias atuais controlam o fogo da inflamação, aprender a ler as chamas no início pode ser a arte que faltava para proteger vidas e preservar dias mais tranquilos, com a leveza de um passeio por um pomar bem cuidado.



















