Por Alessandro Vittorio Romano – Na tessitura cotidiana, onde o tempo interno do corpo dialoga com a respiração da cidade, uma constatação se destaca: enfrentar a tensão com alguém ao lado é como plantar uma sombra num dia muito quente. Um estudo da Universidade de Pádua, em colaboração com a Wake Forest University, publicado na revista Psychophysiology, mostra que a simples presença de outra pessoa reduz a vigilância do cérebro diante de uma ameaça. Em suma, estar junto funciona como um verdadeiro escudo social.
Os pesquisadores investigaram um reflexo primitivo — o reflexo de sobressalto (ou trasalimento), a contração muscular rápida que ocorre após um som repentino — para entender como o cérebro regula a prontidão em situações estressantes. Quando nos sentimos ameaçados, esse sistema se ‘acende’ para nos preparar à ação; mas, como uma árvore que oferece abrigo, a presença de outros pode modular essa intensidade.
No experimento participaram 70 voluntárias do mesmo sexo (mulheres), escolhidas para reduzir variações de reatividade emocional por gênero. Divididas em três grupos, as participantes foram submetidas ao Trier Social Stress Test (TSST), um protocolo padronizado que simula o stress de um exame ou entrevista de emprego diante de avaliadores. Um grupo realizou a tarefa sozinho; outro, com o parceiro ao lado; e um terceiro com a presença de uma pessoa desconhecida.
Durante o TSST, os cientistas mediram o grau de alerta por meio do reflexo de sobressalto, que tende a aumentar quando o organismo percebe o ambiente como ameaçador. Os dados revelaram que, em situações de stress, quem enfrentava o teste sozinho apresentava maior aumento do reflexo, ou seja, um cérebro mais em alerta. Já as participantes que tinham alguém ao lado — fosse o parceiro ou um desconhecido — exibiram respostas significativamente menos intensas.
O achado mais sensorialmente interessante é que o efeito protetor não dependia da relação afetiva prévia: a simples companhia, mesmo de quem não se conhecia, agiu como amortecedor sobre a reatividade do sistema nervoso. Em termos práticos, a presença humana funcionou como um regulador do estado de vigilância — uma espécie de escudo invisível que alivia a tensão.
Esses resultados ampliam o que já sabíamos por estudos epidemiológicos: o suporte social está associado a melhor saúde física e mental e a maior longevidade. Agora, a equipe de Pádua aponta os mecanismos neurais que explicam esse efeito, conectando o dado social ao funcionamento direto do cérebro.
Como observador dos ritmos sazonais e das pequenas práticas diárias, gosto de pensar que nosso bem-estar é uma colheita de hábitos: partilhar um caminho, um banco de praça ou a sala de espera não é só conforto emocional, é uma intervenção sutil no metabolismo do medo. Em cidades que respiram apressadas, o gesto simples de não estar sozinho pode ser a pausa que o corpo precisa para desacelerar.
Conclui-se, então, que criar oportunidades de companhia — nem sempre íntima, por vezes efêmera — pode ser uma estratégia acessível de gestão do stress. O estudo de Pádua nos lembra que, na prática, a cura cotidiana passa também pela presença do outro: um verdadeiro escudo social, discreto e potente.






















