Por Alessandro Vittorio Romano — A paisagem clínica do cancro uroteliale na Itália acaba de ganhar um novo horizonte: a AIFA reconheceu a rimborsabilidade de enfortumab vedotin (Padcev*) em associação com pembrolizumab (Keytruda*) para o tratamento de primeira linha de adultos com carcinoma urotelial não ressecabile ou metastático. Em termos práticos, trata‑se da primeira combinação aprovada no país que oferece uma alternativa real à tradicional chemioterapia contenente platino, padrão usado por quase quatro décadas.
Quando penso nessa notícia, imagino uma mudança tão significativa quanto o primeiro broto após um inverno longo: não altera somente a aparência do jardim, altera o ciclo. O cancro uroteliale, que aparece entre os quatro tumores mais frequentes na Itália, registra mais de 31 mil novos casos por ano, segundo dados Aiom – Airtum em ‘I numeri del cancro in Italia 2025’. As taxas de sobrevida a 5 anos são de cerca de 80% nos homens e 78% nas mulheres, com aproximadamente 8.300 óbitos anuais. Infelizmente, a detecção tardia mantém cerca de 12% dos diagnósticos já em fase avançada ou metastática, situação associada a desfechos muito piores.
A aprovação da rimborsabilidade pela AIFA baseou‑se nos resultados do estudo de fase 3 EV‑302 (Keynote‑A39), que comparou a combinação de enfortumab vedotin e pembrolizumab com a chemioterapia contenente platino em pacientes com carcinoma urotelial localmente avançado ou metastático previamente não tratados. Os resultados traduzem uma mudança de maré: a sobrevida global mediana (OS) foi de 31,5 meses no braço da combinação, contra 16,1 meses com quimioterapia, com um hazard ratio de 0,47 — isto é, uma redução estimada de 53% no risco de morte. A sobrevida livre de progressão (PFS) também quase dobrou: 12,5 meses versus 6,3 meses, com hazard ratio de 0,45, indicando uma redução de 55% no risco de progressão da doença ou morte.
Esses números não são apenas estatísticas; são promessas de tempo extra, de estações a mais com a família, de rotina reconfigurada. O professor Roberto Iacovelli, referente em Oncologia Médica na Università Cattolica Sacro Cuore — Fondazione Policlinico Universitario A. Gemelli IRCCS, definiu a novidade como uma «vera rivoluzione» no manejo desses pacientes, capaz de alterar o curso clínico de quem enfrenta a forma avançada da doença.
Há, todavia, dimensões além dos dados: o impacto físico, emocional e socioeconômico do carcinoma da bexiga em fase avançada é profundo. Muitos pacientes e cuidadores convivem com limitações que atingem o trabalho, as relações e o bem‑estar mental. Saber que existe uma opção terapêutica capaz de aumentar tanto a sobrevida global quanto a sobrevida livre de progressão traz um alento que vai além da sala de tratamento — é o sopro de uma nova estação no calendário pessoal de cada pessoa afetada.
Como observador atento das conexões entre ambiente e saúde, vejo essa aprovação como uma colheita de avanços científicos que precisa ser acompanhada por uma colheita de informação: reconhecer sinais, procurar avaliação médica precoce e ampliar a conscientização sobre os sintomas do cancro uroteliale permanecem passos essenciais para transformar a prometida longevidade clínica em qualidade de vida real.
Em resumo: a combinação de enfortumab vedotin e pembrolizumab chega ao sistema de saúde italiano oferecendo uma alternativa efetiva à chemioterapia contenente platino, com ganhos robustos em sobrevida e controle da doença. É uma virada que convida a um novo ritmo — o tempo interno do corpo acompanhando a respiração renovada da paisagem médica.






















