Sou Alessandro Vittorio Romano, observador atento das pequenas e grandes respirações da vida italiana. Hoje trago a notícia que interrompe, como um vento frio antes de uma nevasca, a serenidade pré-olímpica: a biatleta italiana Rebecca Passler, 24 anos, foi suspensa após resultado positivo para letrozolo — o primeiro caso de doping registrado nas Olimpíadas de Milano-Cortina 2026.
O teste que revelou a presença do composto foi realizado fora de competições, e a suspensão chegou poucos dias antes do início dos Jogos, provocando perguntas e inquietações na delegação e entre os que acompanham o ritmo da preparação atlética como quem observa a paisagem se ajustar ao inverno.
O letrozolo aparece na lista de substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidoping (WADA). É um medicamento hormonal usado, em circunstâncias clínicas, no tratamento de tumores de mama e em protocolos para infertilidade feminina. No entanto, na trilha do corpo que busca ganhos rápidos, essa mesma molécula pode funcionar como uma espécie de máscara: ao reduzir os níveis de estrogênio, letrozolo contribui para elevar a produção relativa de testosterona, hormônio ligado ao desenvolvimento muscular e à recuperação intensificada.
Além desse efeito hormonal, especialistas apontam que o letrozolo pode facilitar a perda de gordura corporal, modificar a composição muscular e acelerar o retorno após treinos extenuantes — qualidades que tornam a substância atraente para uso indevido no esporte. Por isso, a WADA inclui o letrozolo, junto com fármacos como o clomifeno, entre os medicamentos proibidos por sua capacidade de “mascarar” o uso de anabolizantes.
O episódio lembra um caso anterior em que o mesmo composto foi identificado: em 2017, a tenista Sara Errani também teve um teste positivo para letrozolo. Na ocasião, Errani alegou uso involuntário, mas acabou recebendo uma suspensão de dois meses. Essas precedentes mostram que, embora as explicações variem, a presença da substância é tratada com rigor pelas autoridades antidoping.
Uma curiosidade factual: o letrozolo obteve aprovação da Food and Drug Administration (FDA) em 25 de julho de 1997 para usos médicos específicos. Fora desse contexto terapêutico, porém, o seu emprego em atletas encontra barreiras legais e éticas fortes.
Para além dos técnicos pareceres e das possíveis sanções, há uma dimensão humana que me interessa: como a respiração da cidade e o pulso dos atletas se organizam quando um caso desses vem à tona? Há sempre um choque inicial, seguido pelo trabalho paciente dos responsáveis, que precisam cuidar tanto da verdade quanto do cuidadoso bem-estar dos esportistas.
As autoridades antidoping investigarão as circunstâncias do resultado e decidirão sobre as medidas disciplinares cabíveis. Enquanto isso, ficamos com a sensação de que, como em um jardim que precisa de poda, o esporte contínua sua colheita de hábitos éticos — e cada episódio nos lembra da importância de cultivar transparência e saúde, raízes do verdadeiro desempenho.






















