Roma, 21 de janeiro de 2026 — A paisagem humana das cidades respira como um corpo coletivo, e nem sempre essa respiração é leve. Uma pesquisa recente realizada pelo Censis, em parceria com a Lundbeck Italia, apresentada em Roma, revela que a percepção pública sobre a saúde mental na Itália ainda carrega sombras profundas: 67,9% dos italianos acreditam que transtornos mentais continuam marcados pela vergonha e pela discriminação.
O levantamento — intitulado “Salute mentale e salute del cervello nella concezione della salute degli italiani” — desenha um quadro onde as doenças psiquiátricas são vistas como mais estigmatizadas do que as desordens neurológicas, que somam 44,9% na percepção de estigma. É como se, na praça pública das relações sociais, alguns sofrimentos ficassem à margem, sujeitos ao frio do preconceito.
Não é apenas o rótulo que preocupa: quase 59% dos entrevistados consideram que a vida daqueles que enfrentam problemas mentais permanece marcada por isolamento social e constrangimento. Essa sensação coletiva lembra uma cidade em que certas ruas são evitadas — e quem delas precisa atravessar olha para o chão, sem ser visto.
Quando a pergunta é direcionada para a experiência pessoal, a definição de saúde mental adquire uma cor mais íntima: 50,3% do público entende saúde mental como a ausência de sofrimento psicológico, isto é, a falta de sintomas que afetem o estado emocional, como ansiedade e depressão leve. É uma visão centrada no bem-estar imediato do dia a dia, na respiração tranquila do corpo.
Há, contudo, sinais de mudança na paisagem cultural. A maioria mostra-se disposta a buscar ajuda: 82,0% afirmam que recorreriam ou já recorreram a um profissional diante de um problema de saúde mental. É como se, mesmo em solos marcados por estigmas, brotassem pequenas raízes de cuidado, convidando à colheita de práticas que restauram o equilíbrio.
Esses números não são apenas estatísticas frias; eles descrevem hábitos, medos e esperanças. Eles falam de famílias que hesitam antes de nomear uma dificuldade, de vizinhos que sussurram, de escolas e locais de trabalho que ainda precisam se transformar em ambientes acolhedores. Mas também indicam uma abertura — a vontade de procurar apoio profissional — que pode ser regada por políticas públicas, educação e diálogo aberto.
Como observador do cotidiano e da relação entre ambiente e bem-estar, percebo que reduzir o estigma é um trabalho de pequenos gestos: uma conversa sem julgamentos, a visibilidade de trajetórias de recuperação, espaços de cidade que favoreçam o encontro. A saúde mental, afinal, é também a maneira como a cidade cuida da sua respiração coletiva.
Em tempos em que as estações parecem acelerar, é urgente lembrar que o inverno da mente pode ser suavizado por iniciativas de cuidado e por uma linguagem que devolva ao sofrimento humano sua dignidade. A pesquisa do Censis com a Lundbeck Itália é um mapa. Resta a todos nós, moradores e instituições, caminharmos para transformar esses dados em políticas, empatia e práticas cotidianas que acolham.






















