Por Alessandro Vittorio Romano — As novas Dietary Guidelines for Americans 2025–2030 chegam como uma brisa diferente no panorama da nutrição: menos moralização sobre alimentos isolados e um convite mais claro a recuperar a qualidade da dieta com alimentos simples, reconhecíveis e nutritivos. É assim que a dra. Elisabetta Bernardi, bióloga nutricionista e professora de Biologia da Nutrição na Universidade de Bari, descreve as recomendações recém-divulgadas e que vêm provocando um debate que ultrapassa o campo estritamente nutricional.
Um dos pontos que chama a atenção é a sugestão de consumo diário de 1,2–1,6 g/kg de proteínas, valor superior à prática comum em muitas diretrizes. Pode soar elevado, mas a explicação tem a leveza de quem observa ciclos: o objetivo não é apenas suprir um mínimo teórico, e sim atuar sobre processos fisiológicos importantes — aumentar a sensação de saciedade, reduzir o consumo excessivo de calorias e preservar a massa muscular. Essa massa é, em muitos sentidos, a raiz da saúde metabólica e um aliado na luta contra obesidade e perda funcional ligada à idade.
A novidade está em enxergar as proteínas não como vilãs nem como um fim em si, mas como uma ferramenta dentro de um trabalho mais amplo de saúde pública. Bernardi enfatiza que os valores propostos são um range funcional e precisam ser adaptados conforme idade, atividade física e condições clínicas — não são prescrições rígidas. É como ajustar a rega de um jardim: a mesma medida não serve para todas as plantas.
Uma preocupação levantada por quem lê as recomendações de fora é se isso não poderia incentivar dietas desbalanceadas ou um consumo excessivo de carne. A análise cuidadosa do documento desmente essa visão simplista. As diretrizes reconhecem que, em uma população com altas taxas de obesidade e diabetes, as proteínas — inclusive as animais — podem ser um recurso eficiente para aumentar a saciedade. Mas o texto também destaca leguminosas, frutas oleaginosas e outras fontes vegetais: o foco é em refeições mais estruturadas e saciantes, compostas por alimentos com baixo teor de sal, açúcares, gorduras saturadas e aditivos.
O contexto americano é decisivo para entender o tom do documento. Como observa Bernardi, as novas diretrizes nascem em um país que enfrenta uma crise metabólica profunda: mais de 70% dos adultos em sobrepeso, mais de 40% em obesidade, e prevalência elevada de diabetes e pré-diabetes. Uma parte significativa da energia diária é proveniente de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas. Nesse cenário, a estratégia pública precisa responder a um problema de excesso calórico crônico e perda progressiva de massa magra — um tipo de solo empobrecido onde tudo cresce de forma desigual.
Para leitores europeus e italianos, a lição prática não é replicar medidas ao pé da letra, mas compreender a lógica por trás delas: menos rótulos simplistas de “bom” e “mau” alimento; mais atenção à qualidade global da dieta, às texturas, ao poder de saciedade e à composição das refeições. É um convite a recolher hábitos como se fosse uma colheita: escolher alimentos que sustentem o corpo ao longo do dia, preservem a massa magra e ajudem a regular a fome.
Em suma, as Dietary Guidelines for Americans 2025–2030 não são um veredito final, mas um mapa orientador pensado para um território com desafios específicos. Como toda recomendação de saúde pública, ganha sentido quando adaptada ao ritmo individual — ao seu próprio tempo, à sua respiração interna e ao desenho cotidiano da alimentação. E, acima de tudo, lembram que a comida, quando simples e bem combinada, pode ser um gesto de cuidado tão essencial quanto a paisagem que nos cerca.






















