Diabetes pode afetar a mente: estudo liga doença a distúrbios psíquicos
Por Alessandro Vittorio Romano – Espresso Italia
Quando pensamos em diabetes, geralmente visualizamos glicemia, rim, olhos e vasos sanguíneos. Mas a doença metabólica também respira dentro do cérebro: estudos recentes indicam que o diabetes pode provocar alterações que repercutem nas emoções e na cognição, contribuindo para transtornos do humor e dificuldades cognitivas.
Uma pesquisa colaborativa do IRCCS Neuromed e da Sapienza Università di Roma, publicada na revista Neurobiology of Disease, investigou em modelos animais como o diabetes atua sobre estruturas cerebrais chamadas de redes perineuronais. Essas redes são como um tecido protetor que estabiliza as conexões entre neurônios, regulando a plasticidade sináptica — ou seja, a capacidade do cérebro de adaptar-se e reconfigurar-se.
Os pesquisadores observaram que, na presença do diabetes, essas redes perineuronais se tornam mais densas no córtex insular, uma região cerebral integrante da chamada rede da saliência. Essa rede é quem decide o que merece nossa atenção: ela avalia se um estímulo é relevante, se carrega um valor emocional positivo ou negativo, e orienta nossas respostas comportamentais.
Imagino essa alteração como se o cérebro colocasse uma coloração diferente na paisagem interna — certas trilhas deixam de ser flexíveis e se fixam, dificultando o ajuste às novas estações da vida. Um córtex insular com redes perineuronais mais densas pode tornar a interpretação dos estímulos menos maleável, favorecendo sintomas depressivos, ansiedade e défices de atenção ou memória.
O estudo, realizado em modelos animais, não busca alarmar, mas iluminar uma conexão muitas vezes subestimada: o metabolismo do corpo e o ritmo emocional da mente estão entrelaçados. Para quem convive com diabetes, isso reforça a importância de acompanhar não só glicemias e pressão, mas também o estado psicológico. Medicina e cuidado cotidiano devem conversar — como duas estações que se influenciam.
Na prática clínica, essa descoberta sugere atenção ampliada: triagens psicológicas regulares, suporte psicossocial e um olhar integrado entre endocrinologia e saúde mental podem ajudar a detectar precocemente sinais de transtornos do humor e declínio cognitivo. Intervenções que promovam plasticidade cerebral — atividade física, sono regular, manejo do estresse e estímulo cognitivo — funcionam como uma poda cuidadosa, permitindo que a paisagem interna recupere alguma flexibilidade.
Em resumo, o diabetes não é apenas uma questão de números na sexta-feira de manhã; é também uma condição que pode redesenhar, em silêncio, aspectos do nosso afeto e pensamento. Como observador dos ritmos cotidianos, recomendo cultivar um cuidado holístico: atenção às estrelas do exame de sangue e também à respiração da alma.
Referência: Studio IRCCS Neuromed e Sapienza Università di Roma; publicação em Neurobiology of Disease.






















