Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma paisagem onde o tempo interno das famílias marca escolhas e renúncias, surge um dado que faz vibrar a respiração coletiva: a despesa privada das famílias italianas com saúde mais que dobrou desde a criação do Sistema Nacional de Saúde (Ssn) em 1978. É o que revela o 21.º Relatório Saúde do CREA, apresentado hoje no Cnel, um balanço que mistura números frios com a realidade quente do dia a dia.
Na média, os gastos diretos das famílias com cuidados de saúde atingiram 4,3% do orçamento familiar. Porém, nas famílias de menor escolaridade esse peso sobe para 6,8%, como se o inverno da mente financeira deixasse um rastro mais pesado onde já havia fragilidade.
O relatório destaca outro sinal de alerta social: a parcela da despesa privada sustentada pelo 60% mais pobre dos lares aumentou de 27,6% para 37,6%. Em termos absolutos, a despesa privada chega a 43,3 bilhões de euros, correspondendo a quase um quarto do total dos gastos em saúde. É uma colheita de gastos que tira recursos antes destinados a outras necessidades fundamentais.
Geograficamente, a fotografia é desigual: no Norte a despesa privada cresceu em paralelo ao rendimento disponível, como se a paisagem econômica acompanhasse o compasso; já no Centro e no Mezzogiorno o crescimento foi muito mais acentuado, drenando recursos familiares e obrigando escolhas imediatas. O relatório interpreta esse comportamento como a prova de que os consumos sanitários “extra Ssn” são vistos pelas famílias como algo necessário e não postergável.
O CREA — consórcio originado pela Universidade de Roma Tor Vergata e pela Fimmg — lança um aviso claro: sem uma mudança de paradigma, o Ssn terá dificuldades para responder às necessidades em evolução. É um chamado que ecoa como o vento antes da tempestade: reorganizar serviços, proteger os mais vulneráveis e repensar o financiamento público são medidas que, no campo do bem-estar, funcionam como raízes para segurar a casa.
Do ponto de vista humano, esses números contam histórias de escolhas cotidianas: consultas adiadas, medicamentos comprados em vez de prescrições cobertas, exames que raspam a poupança. Como um solo que vai perdendo nutrientes, as famílias menos favorecidas sentem primeiro o esgotamento.
Para quem, como eu, observa a relação entre clima social e saúde, a leitura do relatório é um convite à atenção sensível — perceber que a saúde pública não é apenas um conjunto de serviços técnicos, mas a circulação de confiança e segurança dentro das comunidades. O desafio colocado pelo CREA pede respostas que integrem políticas, práticas locais e uma visão de longo prazo, para que a respiração da cidade e das famílias volte a ser ritmada por escolhas de vida, não por necessidades impostas.
Em suma: a conta da saúde privada subiu, pesa mais sobre os menos protegidos e exige, agora, corajosidade política e criatividade social para que o Sistema Nacional de Saúde recupere o fôlego e responda ao despertar das novas demandas.






















