Por Alessandro Vittorio Romano — A sanidade italiana revela fissuras que ainda não cicatrizaram com o fim da emergência pandêmica. Na Relazione al Parlamento redigida pela Corte dei conti sobre a gestão dei Servizi Sanitari Regionali surge um retrato claro: persistem diferenças entre regiões e a presença crescente da spesa privada aprofunda desigualdades no acesso aos cuidados.
Os números são incisivos: a spesa pública em saúde, no triênio 2022-2024, passou de 131,3 para 138,3 bilhões de euros, registrando uma alta de 4,9% em relação a 2023 (e 5,4% comparado a 2022). Apesar desse aumento, a incidência sobre o PIB mantém-se estável em torno de 6,3-6,4%, abaixo da média europeia, que chega a 6,9%.
A Corte dos Contas chama a atenção para as regiões em piano di rientro — Calabria, Molise, Sicilia, Campania, Lazio, Abruzzo e Puglia — onde as dificuldades estruturais persistem, mesmo com alguns sinais de melhoria nas contas. Esse quadro financeiro traduz-se também em diferenças concretas na oferta de cuidados: há “significative diseguaglianze” na erogação dos Livelli Essenziali di Assistenza (LEA), a lista de serviços que deve ser garantida uniformemente em todo o país. A consequência é um nítido desalinhamento Norte–Sul no direito à saúde.
Ao mesmo tempo, o relatório aponta indícios de que a expansão da despesa privada e dos gastos diretos das famílias pode estar a compensar lacunas do serviço público, criando uma espécie de dupla velocidade no acesso a tratamentos e tempos de espera. Em termos práticos, isso significa que a mobilidade sanitaria, a procura por serviços privados e as soluções locais variáveis transformam a saúde num mosaico, mais dependente do lugar onde se nasce do que do princípio igualitário inscrito no sistema.
Como observador atento das estações da vida coletiva, vejo esse cenário como a respiração desigual de um território: alguns pulmões respiram com vigor, outros sofrem para manter o mesmo ritmo. A saída não virá apenas de números: exige políticas integradas, planeamento de longo prazo e atenção às raízes do bem-estar — investimentos em prevenção, organização dos serviços e certificação da oferta em todos os cantos da península.
Em suma, a mensagem da Corte dei conti é clara e amarga: o pós-pandemia não foi suficiente para nivelar as diferenças e o aumento da despesa pública, embora positivo, mantém uma incidência sobre o PIB aquém da média europeia. Enquanto isso, a presença crescente da spesa privata corre o risco de consolidar um sistema de acesso desigual, onde a geografia decide parte do cuidado recebido.
Para recuperar uma respiração mais equilibrada no sistema de saúde italiano é preciso mais do que recursos imediatos: é necessário um compromisso coordenado entre Estado e Regioni, capaz de traduzir a colheita das lições recentes em reformas que reduzam as disparidades e garantam os LEA de maneira uniforme, da planície aos montes, do litoral ao interior.





















