Sou Alessandro Vittorio Romano, observador atento das pequenas estações do corpo e da cidade. Em meio à respiração invernal das ruas italianas, surge um mapa novo e inquietante: os transtornos alimentares estão se diversificando e assumindo formas que, muitas vezes, passam despercebidas.
Segundo a psiquiatra Laura Dalla Ragione, citada em relatórios sobre o tema, cerca de 3 milhões de pessoas na Itália convivem hoje com algum tipo de transtorno do comportamento alimentar. Em véspera da jornada mundial dedicada à causa, ela chama atenção para “novas declinações” desses distúrbios, que vão muito além dos estereótipos tradicionais.
Entre as emergentes, destaca-se a ARFID (Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder) — aqui, a fome parece obedecer a uma cerca: quem sofre de ARFID consome uma gama muito restrita de alimentos. O quadro pode se manifestar em todas as idades, com maior incidência na infância e adolescência, e com uma distribuição de sexo que surpreende: cerca de 60% em meninos e 40% em meninas. É como se o paladar guardasse raízes profundas que recusam certos frutos.
Outra sombra crescente é a chamada diabulimia, um problema específico entre pessoas com diabetes tipo 1 que manipulam a insulina como método para controlar o peso. Nesse gesto perigoso, a cidade interior do corpo experimenta um inverno, onde a regulação metabólica é sacrificada em nome de um controle ilusório.
Há ainda a ortoressia, a obsessão pelo “comer saudável” tão difundida em academias e espaços de performance corporal; e a bigoressia, fixação pela massa muscular que atinge principalmente os homens. Ambas transformam o cuidado em castigo, convertendo a alimentação em um ritual de punição e vigilância.
Do outro lado do espectro, encontramos o binge eating — o transtorno da compulsão alimentar — marcado por episódios de grande ingestão em curto período, com relatos que variam de 3.000 a 30.000 calorias em menos de duas horas, sem estratégias compensatórias. É uma tempestade que passa pelo corpo rápido, deixando culpa e cansaço como resíduos.
Dalla Ragione também aponta para sobreposições clínicas que merecem cuidado e sensibilidade: até 30% dos casos de anorexia podem apresentar características do espectro autista, uma intersecção que exige abordagens terapêuticas mais delicadas e personalizadas. Sob o mesmo céu, o diagnóstico não pode ser uma lente única; é preciso ver a paisagem inteira.
Como observador do dia a dia, eu digo: reconhecer essas nuances é como aprender a ouvir a respiração de uma cidade ao amanhecer. Cada distúrbio traz pistas — comportamentos, hábitos, silêncios à mesa — que pedem atenção humana, empatia e intervenções especializadas. O convite é cultivar uma colheita de hábitos saudáveis, sem dogmas, com profissionais que compreendam tanto o corpo quanto a história de quem o habita.
Num país onde a mesa é cultura e afeto, precisamos redescobrir a conversa verdadeira sobre alimentação — longe de julgamentos, perto do cuidado. Celebrar o Dia Mundial dos Transtornos Alimentares é, antes de tudo, abrir espaços de escuta, tratamento e acolhimento para quem caminha entre essas novas e velhas paisagens.
Alessandro Vittorio Romano – Espresso Italia






















