Por Alessandro Vittorio Romano — Há uma poesia discreta no gesto cotidiano de um avô que embala um sono ou que revisa a lição com um lápis colorido: é a respiração suave de laços que, além de aquecer a alma, pode nutrir a mente. Um estudo coordenado pela Tilburg University, na Holanda, e publicado na revista Psychology and Aging, sugere que o papel ativo dos avós no cuidado infantil pode estar associado a um menor declínio cognitivo.
Os pesquisadores acompanharam 2.887 avós que responderam a um inquérito sobre as atividades com seus netos e realizaram testes cognitivos em três momentos, entre 2016 e 2022. As tarefas descritas variavam desde brincar e ajudar com os deveres de casa até preparar refeições ou levá-los para atividades diárias — cenas simples, quase rituais, que compõem a colheita de hábitos de muitas famílias.
Segundo Flavia Chereches, uma das autoras, “muitos avós cuidam regularmente dos netos; uma forma de ajuda que sustenta as famílias e a sociedade. Mas restava saber se esse cuidado também poderia beneficiar os próprios cuidadores”. A resposta, segundo os dados, aponta para uma associação positiva: aqueles que dedicavam tempo a cuidar das crianças apresentaram escores mais altos em testes de memória e de fluidez verbal.
Importante notar que os resultados foram observados independentemente do tipo de atividade realizada com os netos e da frequência desse cuidado. Em outras palavras, atividades diferentes — um passeio no parque ou uma tarde de leitura — parecem oferecer estímulos cognitivos relevantes, como pequenas estações de treino para o cérebro.
Como observador atento das paisagens do cotidiano, interpreto esses achados como parte do diálogo entre gerações: o ato de cuidar é um estímulo social, emocional e, muitas vezes, físico. Ele ativa a atenção, desafia a memória e exige linguagem — ingredientes que, combinados, podem fortalecer redes cognitivas. Ainda assim, convém ser claro: trata-se de um estudo observacional. A associação não prova causalidade absoluta, mas lança luz sobre práticas que podem fazer bem ao corpo e à mente.
Para os que vivem a Itália como uma experiência viva, pensar no cuidado intergeracional é também pensar no ritmo da cidade, no tempo interno do corpo e nas raízes do bem-estar. Seja no banco de uma praça siciliana, num pequeno almoço partilhado em Florença ou numa tarde de jogos em Milão, o ajustar-se ao compasso das crianças lembra um reaprendizado que pode manter o cérebro alerta.
Em suma, a pesquisa de Tilburg traz um convite: valorizar os laços com as novas gerações não é apenas um gesto de afeto, é também uma prática potencialmente eficaz para manter a mente ativa. Conservamos, assim, culturas e saberes ao mesmo tempo em que cultivamos a própria saúde cognitiva — uma verdadeira safra de bem-estar intergeracional.
Referência: Tilburg University; Psychology and Aging; dados de 2016 a 2022; amostra de 2.887 participantes. Autora citada: Flavia Chereches.
















