Assisto, com a sensibilidade de quem percebe o ritmo das cidades como uma respiração, a escalada da crise em Cuba. Nos últimos dias, notícias vindas da ilha confirmam que os hospitais de todo o país suspenderam as intervenções cirúrgicas programadas — um reflexo duro de uma crise energética e de abastecimento que já afeta a rotina do cuidado e da vida.
Fontes locais citadas pela imprensa independente 14ymedio relatam que profissionais de saúde encontraram falta de itens básicos: analgesia, anti-hipertensivos, antibióticos, fluidos endovenosos, cateteres e gazes estão em falta nos centros médicos. É como se a colheita anual de insumos tivesse secado: sem esses elementos, procedimentos que cuidam do corpo tornam-se impossíveis, e a urgência médica passa a conviver com a escassez.
Ao mesmo tempo, a crise no transporte público avança como uma maré que retira os barcos do cais. Relatos do Tiempo 21 e do Escambray indicam que, no município de Las Tunas, as linhas de ônibus foram tão reduzidas que resta apenas uma ligação diária com Havana. Cidades interligadas pela história e pelas necessidades — Camagüey, Holguín, Santiago de Cuba — veem-se com opções muito mais limitadas, afetando deslocamentos essenciais para tratamento, trabalho e vida social.
O setor turístico, pilar do ingresso de divisas e da economia local, também sente o impacto: houve fechamento súbito de hotéis em Cayo Santa María, com hóspedes realocados para outras estruturas. Funcionários e visitantes foram pegos de surpresa, sem explicações oficiais claras, numa decisão que ecoa como uma rajada de vento que muda a face da costa num único dia.
Observo essa confluência de problemas como quem acompanha as estações: quando o inverno das infraestruturas chega, afeta o tempo interno do corpo e a capacidade de cuidar. Médicos, enfermeiros e equipes hospitalares, entrevistados pelos meios independentes, descrevem um cenário de contenção — adiando cirurgias não emergenciais, gerindo estoques como se fossem reservas de água em tempos de seca.
Não há sinais de amenização imediata. A combinação de cortes de energia, restrições de transporte e falta de medicamentos desenha uma crise multifacetada, que não se limita a números, mas traduz-se em dor adiada, viagens impossibilitadas e turistas surpreendidos. Para quem vive a ilha, é uma nova paisagem urbana: o pulso da cidade diminui e a respiração coletiva se ajusta a ritmos mais lentos.
Como um observador atento, registro que, em cenários como este, a resposta mais eficaz costuma nascer das raízes do bem-estar comunitário — redes locais de apoio, solidariedade entre profissionais de saúde e ações direcionadas ao abastecimento crítico. Resta acompanhar se e como essas raízes irão florescer novamente, enquanto a ilha navega por estas águas turbulentas.
Fontes: relatos do 14ymedio, Tiempo 21 e Escambray.






















