Por Alessandro Vittorio Romano, Espresso Italia
Na respiração acelerada do grande evento, quando a paisagem alpina encontra a cidade e o corpo exige o melhor, entra em cena um sistema pensado para proteger a integridade do esporte. Segundo Fabrizio Pregliasco, diretor da escola de especialização em higiene e medicina preventiva da Universidade de Milão La Statale, os controles antidoping nas Olimpíadas Milano-Cortina são severos e tecnologicamente avançados — embora, como toda máquina humana, não sejam perfeitos.
De forma prática, o que isso significa para um atleta? Em primeiro lugar, há testes-surpresa: não apenas durante as provas, mas também fora delas — no hotel, no vilarejo olímpico e até em vésperas de competição. O sistema de reperibilidade (Adams/WADA) obriga atletas de alto nível a informar onde estarão, facilitando a realização de coletas inesperadas.
Os laboratórios envolvidos usam técnicas capazes de detectar microdoses e sinais sutis de manipulação. Além da análise tradicional de urina, há exames de sangue e tecnologias específicas para rastrear esteróides, EPO, hormônio do crescimento, estimulantes e diuréticos. Uma ferramenta central é o passaporte biológico, que monitora ao longo do tempo variações fisiológicas suspeitas, mesmo quando a substância em si não é encontrada.
Outra dimensão do controle é temporal: amostras podem ser conservadas por muitos anos — oito, dez ou mais — permitindo reanálises com técnicas futuras. Assim, um atleta que hoje escape à detecção pode ser responsabilizado retroativamente e perder medalhas obtidas.
As consequências são pesadas: sanções que variam de longas suspensões (2–4 anos ou mais) à revogação de resultados, danos reputacionais e exclusões de edições subsequentes. Pregliasco destaca que, comparadas a outras competições, as verificações olímpicas são “quase militares” em termos de rigor, tanto na quantidade quanto na qualidade.
O procedimento após a seleção para teste é rígido e claro: um oficial antidoping (DCO) identifica-se, notifica formalmente o atleta e passa a fiscalizar sua movimentação. O atleta fica sob acompanhamento constante por um chaperone, presente em situações íntimas como vestiários, quartos de hotel e no vilarejo. Não há margem para ‘desaparecer’.
Mesmo com essa blindagem técnica, há desafios: algumas substâncias têm janelas de detecção curtas e existem estratégias sofisticadas, como o microdosing ou o uso de agentes mascarantes. Ainda assim, a combinação de testes repetidos, passaporte biológico e armazenamento prolongado das amostras mantém alto o risco de detecção.
Enquanto observamos atletas que se preparam como quem cuida de um jardim — regando hábitos, podando excessos, colhendo resultados —, o sistema antidoping age como a vigilância atenta do terreno: implacável para quem tenta adulterar a paisagem competitiva. As Olimpíadas de Milano-Cortina trazem, além do espetáculo, essa colheita de responsabilidade e transparência que protege o valor do esforço puro.
Em suma: os controles antidoping nas Olimpíadas são intensos, multifacetados e pensados para minimizar fraudes. Não são infalíveis, mas tornam cada vez mais árdua a tentativa de escapar ao olhar atento das autoridades e da ciência.
Alessandro Vittorio Romano — observador da vida italiana, apaixonado por como clima e rotina moldam nosso bem-estar.






















