Por Alessandro Vittorio Romano – A respiração lenta de uma cidade que acorda traz, às vezes, notícias que cortam como vento gelado: a história do jovem militar italiano R. E., hoje com perda total da visão, foi marcada por um evento que a Comissão Médica Militar de Bari considerou ligado à vacina Covid. Segundo o laudo, a inoculação com Comirnaty Pfizer teve papel preponderante para o desenvolvimento de um evento trombótico — especificamente uma trombose cerebral dos seios cavernosos — que culminou na cegueira do soldado enquanto estava em serviço ativo.
Os documentos oficiais e o acompanhamento jurídico do caso, conduzido pelo advogado Gianluca Ottaviano, descrevem um quadro em que a presença de uma mutação MTHFR teria funcionado como fator predisponente. Essa alteração genética, amplamente discutida nos últimos anos, é apontada pela reportagem como presente em até cerca de 40% da população mundial — uma cifra que, como muitas colheitas no campo da genética, fala de potenciais e probabilidades mais do que de certezas imutáveis.
A mutação MTHFR, nas variantes mais conhecidas como C677T e A1298C, interfere no metabolismo do ácido fólico e pode levar ao aumento da omocisteína, uma molécula associada a maior risco de trombose e eventos cardiovasculares quando em níveis elevados. No entendimento da Comissão Médica, a mutação teria reduzido defesas oxidativas e, combinada ao estímulo imunológico da vacina, poderia ter atuado como gatilho para o evento trombótico grave que atingiu R. E.
O relato do soldado, ouvido pelo Giornale d’Italia, é de dor e de reflexão: “Se houvesse sido maior a conscientização sobre potenciais efeitos adversos, talvez eu pudesse ter sido salvo”, afirmou, descrevendo uma trajetória de internações, intervenções e o lento aprisionamento do mundo na escuridão após o episódio. É um testemunho que convoca cuidado e empatia, e também o debate profissional sobre triagem, história clínica prévia e comunicação de risco.
Do ponto de vista humano, esta notícia nos lembra que os caminhos do corpo são como raízes que se entrelaçam sob a terra: nem sempre visíveis, mas determinantes para a colheita do bem-estar. A evidência de um nexo causal, reconhecida por uma comissão médica militar, abre portas para pedidos de reconhecimento e ressarcimento, ao mesmo tempo em que reacende a discussão sobre genéticas silenciosas — e sobre como informações sobre predisposições podem ser integradas ao cuidado coletivo.
Os desdobramentos legais ficam a cargo do advogado Ottaviano, que acompanha os procedimentos de reconhecimento do dano e de eventual compensação. Para a sociedade, fica o convite à atenção: a saúde pública é um mosaico composto tanto por políticas amplas quanto por atenção individualizada, e aprender a ouvir as estações do corpo — seu tempo interno — é parte essencial dessa paisagem.
Enquanto as investigações e os procedimentos seguem, a história de R. E. é uma janela sensível sobre a interseção entre genética, vacinas e responsabilidade institucional — um lembrete de que, nas travessias do dia a dia, a informação clara e a escuta cuidadosa são luzes que podem salvar caminhos.






















