Por Alessandro Vittorio Romano
Num momento em que a imagem é martelada por feeds e filtros, a cirurgia plástica ética busca reencontrar sua razão de ser: não como passaporte para a homogeneização ou perda de identidade, mas como um caminho de autocura e de escolha consciente rumo ao bem-estar psicofísico.
Essa é a proposta central do livro Chirurgia dell’Anima: oltre alla forma, verso l’essenza, do cirurgião Luca Spaziante, dirigente da Seção de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética da AOU Città della Salute di Torino. A obra foi apresentada no Senado, na Sala Caduti di Nassirya em Palazzo Madama, em um encontro promovido pela senadora Paola Ambrogio e pela Radio Parlamentare – Percorso Consapevole.
No ambiente silencioso e solene do Senado, Spaziante traçou uma visão que vai além do bisturi: a cirurgia, quando orientada por princípios éticos, pode ser o primeiro passo de um processo maior de renascimento para quem convive com feridas visíveis ou invisíveis. Como ele próprio ressaltou, a saúde — segundo a célebre definição da OMS de 1948 — não é apenas ausência de doença, mas um estado de bem-estar psicofísico e social. É nessa paisagem de sentido que a prática cirúrgica deve se inserir.
Ao longo de anos na linha de frente da cirurgia reconstrutiva, Spaziante percebeu que cada intervenção carrega um peso simbólico: ela pode restaurar não só a forma, mas também as raízes do bem-estar pessoal. A diferença, explicou, está em colocá-la a serviço da pessoa e não da norma estandardizada imposta pelas redes sociais. Em sua fala, defendeu que o bom cirurgião atua como um navegante do corpo e da história do paciente, guiando decisões que equilibrem risco, benefício e sentido.
O debate no Senado traduziu uma inquietação contemporânea: como conservar a liberdade individual diante de padrões estéticos amplificados por plataformas digitais? A resposta proposta por Spaziante e pelos organizadores foi plural — políticas de informação, maior escuta clínica, formação ética e um olhar que considere o contexto social e emocional do paciente.
Para quem acompanha a vida cotidiana como um clima que nos envolve — e não como mera sucessão de eventos — a proposta ressoa de forma quase natural. É como a respiração da cidade que alterna ruído e silêncio; a cirurgia, quando feita com consciência, respeita o ciclo íntimo de cada pessoa, favorecendo uma colheita de hábitos e sentidos que sustentam a saúde.
Ao encerrar, o autor destacou que a reconciliação entre forma e essência não é um retorno ao passado, mas uma atualização da medicina para os tempos digitais: é preciso políticas públicas e práticas clínicas que protejam a autonomia do paciente, combatam a mercantilização do corpo e promovam uma ética que honre a dignidade humana.
Em suma, esta jornada proposta por Spaziante remete a um convite — caminhar com cuidado, ouvir a própria história e usar a técnica como instrumento de renovação, não de conformidade. Como observador deste cotidiano que mistura sol e neblina, acredito que a verdadeira estética floresce quando nasce do respeito à pessoa inteira: corpo, mente e paisagem emocional.






















