Por Alessandro Vittorio Romano — Em Roma, a apresentação do relatório da Caritas “Povertà e salute mentale. Relazione circolare e diritti negati” desenha um retrato que mistura estatística e sensações: a pandemia não criou apenas números, mas ventos que revelaram fragilidades já presentes no tecido social. O resultado é um aumento claro dos problemas de saúde mental, especialmente entre adolescentes e mulheres, com subida de sintomas ansiosos, depressivos e de sofrimento emocional.
Os dados epidemiológicos compilados e citados pelo relatório mostram que os distúrbios mentais em Itália não são marginais. Estudos clínicos estimam que a prevalência de pelo menos um transtorno mental ao longo da vida varia entre 18,6% e 28,5%, enquanto, nos últimos doze meses, situa-se entre 7,3% e 15,6%. A depressão maior atinge entre 10% e 17% da população ao longo da vida e cerca de 2,6–3% no último ano. Os transtornos de ansiedade incidem em 11–17% das pessoas ao longo da vida e em 3–5% anualmente. Já os transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, mantêm uma prevalência mais baixa, estável em torno de 3–6 casos por mil habitantes.
Em tom de observador que sente o pulso da cidade, é possível ver uma paisagem marcada por desigualdades territoriais e sociais: a pobreza atua como um ciclo que alimenta e é alimentado pelo sofrimento mental. O relatório da Caritas descreve essa relação como circular — quando a privação econômica deteriora o bem-estar psicológico e a falta de cuidados adequados impede a saída desse ciclo, negando direitos básicos.
As consequências práticas são óbvias: barreiras ao acesso aos serviços de saúde mental, falta de respostas comunitárias integradas, lacunas nos serviços de prevenção e acompanhamento, e um peso maior sobre famílias e redes informais de apoio. Entre os mais jovens, a combinação de interrupções sociais durante a pandemia, escolaridade marcada por incertezas e a crescente pressão digital criou um terreno fértil para o aumento dos distúrbios emocionais.
A proposta que se destaca no relatório é a necessidade de uma resposta integrada, que una políticas sociais e sanitárias, apostando em serviços comunitários, acolhimento precoce, formação de profissionais e ações que reduzam o estigma. É um convite para cuidar da cidade como quem cuida de uma horta: atentar ao solo, recuperar a água quando falta, proteger as raízes para que o verde brote novamente.
Para quem observa com o olhar atento do cotidiano, a recomendação é clara: investir em prevenção e em redes de apoio territoriais é tão essencial quanto tratar. A saúde mental não é um capítulo isolado — é a respiração da cidade, que pede políticas públicas continuadas, garantia de direitos e recursos para transformar sofrimento em caminhos de recuperação.
O relatório da Caritas é, acima de tudo, um alerta humanizado: a nossa tarefa coletiva, como sociedade, é ouvir os sinais — principalmente dos adolescentes — e responder com coragem, recursos e sensibilidade. Só assim será possível romper o ciclo entre pobreza e saúde mental e devolver às pessoas a possibilidade de florescer, estação após estação.






















