Milão, 27 de janeiro de 2026 — Como quem observa uma paisagem que se altera com as estações, percebo nas vias respiratórias um lento desgaste que muitas vezes passa despercebido até que a colheita dos sintomas se torne pesada demais. As bronquiectasias são isso: uma enfermidade pulmonar inflamatória, crônica e progressiva, marcada pela dilatação permanente e pelo espessamento das vias aéreas, onde o muco denso encontra espaço para estagnar e alimentar um ciclo de infecções, inflamação crônica e lesão irreversível do tecido pulmonar.
Em Milão, a Insmed organizou o media tutorial “Alla scoperta delle bronchiectasie: burden, gestione clinica, opzioni terapeutiche di oggi e di domani”, reunindo especialistas internacionais para actualizar o panorama sobre o impacto clínico e social das bronquiectasias não associadas à fibrose cística e para traçar as perspectivas terapêuticas. O encontro aprofundou a evolução do manejo clínico e as novas estratégias farmacológicas e não farmacológicas em desenvolvimento.
Os números lembram que não se trata de um problema raro: estimativas recentes apontam para cerca de 680 casos a cada 100.000 habitantes globalmente, com prevalência maior entre mulheres, e aproximadamente 130 casos a cada 100.000 na Itália. No entanto, esse retrato epidemiológico convive com um problema crônico de outra natureza: o atraso no diagnóstico. Em muitos pacientes, a identificação correta da doença demora anos — frequentemente mais de uma década — permitindo que o processo de dano pulmonar progrida silenciosamente.
Como observou o professor Stefano Aliberti, da Humanitas University e diretor da Unidade de Pneumologia do IRCCS Humanitas Research Hospital em Rozzano, “as bronquiectasias representam hoje uma patologia respiratória crónica muito mais frequente do que se pensava. Um dos principais problemas permanece o diagnóstico tardio, com tempos que podem superar 5-7 anos, expondo os pacientes a diagnósticos errados, tratamentos inadequados e progressão do dano pulmonar”.
Na prática cotidiana, as pessoas com bronquiectasias enfrentam sintomas que perturbam a respiração da cidade e do corpo: tosse persistente, produção de escarro, falta de ar e infecções repetidas. As exacerbações — piores imprevisíveis dos sintomas — ocorrem com frequência e, quando aparecem, podem durar de 2 a 4 semanas, trazendo sofrimento físico e psicológico, queda na qualidade de vida e maior risco de hospitalização e mortalidade.
O painel em Milão debateu tanto estratégias consolidadas de cuidado — reabilitação respiratória, manejo do muco, vacinação e uso criterioso de antibióticos — quanto drogas em investigação e abordagens personalizadas que prometem alterar o curso da doença. Há um consenso crescente: agir cedo, como se regássemos uma muda na estação favorável, pode preservar pulmões e vidas.
Para mim, que reflito sobre bem-estar como uma sinfonia entre ambiente e corpo, as bronquiectasias lembram um outono que insiste em se repetir dentro do peito. A resposta clínica ideal combina vigilância ativa, diagnóstico mais rápido e novas opções terapêuticas que visem romper o ciclo de infecção e inflamação. A comunidade médica e os pacientes ganham esperança com as pesquisas em curso — e com iniciativas informativas como o encontro promovido pela Insmed, que traduzem conhecimento técnico em caminhos possíveis para uma vida com respirações mais leves.
Enquanto isto, cabe à sociedade cultivar a atenção: reconhecer sinais, reduzir atrasos diagnósticos e promover acesso a cuidados especializados. Assim como aprendemos a ler as estações para semear melhor, aprender a ler a respiração é semear cuidados que possibilitem colheitas mais ricas de saúde e presença no dia a dia.






















