Por Alessandro Vittorio Romano — Uma nova pesquisa sugere que o Parkinson pode deixar suas primeiras pistas circulando nas veias muito antes de o corpo mostrar os sinais clássicos. Publicado em npj Parkinson’s Disease, o estudo liderado pela Chalmers University of Technology (Suécia), em parceria com o Oslo University Hospital, encontrou um perfil molecular no sangue que aponta para processos celulares iniciais da doença — uma descoberta que acende esperança para o diagnóstico precoce e intervenções mais oportunas.
O trabalho foi coordenado pela professora associada Annikka Polster, com o dossiê científico do primeiro autor, o doutorando Danish Anwer. Usando análises de expressão gênica e ferramentas de machine learning, a equipe identificou um padrão de ativação relacionado à reparação do DNA e à resposta ao estresse celular que aparece nas fases iniciais — a chamada fase prodromal — e desaparece quando a doença progride.
Os autores lembram que os sintomas motores normalmente surgem quando entre 50% e 80% das células nervosas envolvidas já estão comprometidas. É como perceber que uma árvore está murchando quando metade dos seus galhos já secou: a intervenção chega tarde. Identificar marcas biológicas no sangue enquanto a paisagem ainda respira oferece uma verdadeira janela de oportunidade biológica, segundo Polster.
Do ponto de vista prático, a vantagem é grande. Ao contrário de métodos mais invasivos como imagens cerebrais complexas ou análise do líquido cefalorraquidiano, um teste a partir do sangue poderia permitir um diagnóstico precoce amplo, de baixo custo e menos desconfortável para quem se submete ao exame — uma espécie de colheita suave de sinais que o corpo guarda antes que a doença se torne óbvia.
Os cientistas destacam que esses sinais são transitórios: ficam detectáveis apenas numa fase inicial e desaparecem com o avanço do processo neurodegenerativo. Por isso, a sensibilidade das técnicas e o tempo de rastreio serão cruciais. Combinando dados moleculares e algoritmos, o time foi capaz de distinguir pacientes na fase prodromal de indivíduos saudáveis e daqueles já com diagnóstico confirmado.
Em termos concretos, os autores projetam que, dentro de cinco anos, testes sanguíneos baseados nesses achados possam começar a ser testados em sistemas de saúde. No horizonte mais amplo, a descoberta também abre caminho para desenvolver novos medicamentos — ou reaproveitar moléculas já existentes — direcionadas aos mecanismos ativos nas etapas iniciais do Parkinson.
Como observador do cotidiano e dos ciclos que nos moldam, vejo nessa pesquisa a imagem da estação que anuncia a próxima colheita: sinais sutis guardados na seiva, presentes antes do desabrochar. Detectar essas mensagens precoces do corpo pode transformar como envelhecemos e como cuidamos de quem caminha conosco pela paisagem da vida.
Resumo prático para o leitor: o estudo — coordenado por Annikka Polster com o primeiro autor Danish Anwer na Chalmers University of Technology e colaboração do Oslo University Hospital — identifica biomarcadores no sangue ligados à reparação do DNA e à resposta ao estresse celular que podem sinalizar o Parkinson até 15–20 anos antes dos sintomas motores; tais sinais formam um perfil detectável por machine learning e podem dar origem a testes e terapias mais cedo.






















