AVELLINO, 03 de março de 2026 — Em um comentário carregado de sensibilidade e crítica construtiva, o infectologista Matteo Bassetti voltou a defender a ideia de um centro único para os trapiantos pediátricos na Itália, após a trágica morte do pequeno Domenico, ocorrida no hospital Monaldi de Nápoles.
Em entrevista ao programa Primativvu, Bassetti lembrou que quando uma equipe não está habituada a realizar um número elevado de procedimentos complexos, os erros acontecem com mais facilidade: “Quando não sei acostumado a fazer muitos trapiantos e seguir tantas procedimentos, acontecem mais facilmente os erros”. A frase ressoa como um alerta sobre a relação entre prática, volume e segurança clínica.
Segundo o especialista, a realidade estatística nacional reforça a necessidade de repensar a organização dos serviços: são cerca de 35 a 40 trapiantos de coração em crianças por ano em toda a Itália. Diante desse número modesto, questiona-se a lógica de manter uma multiplicidade de centros com baixa frequência de operações, em vez de concentrar recursos, experiência e equipes em um único polo de referência pediátrica.
Bassetti também destacou um dado que acentua a crítica: o hospital Monaldi teria realizado apenas um trapianto de coração nos últimos três anos antes do caso de Domenico. Para o infectologista, os chamados “campanilismi“, isto é, a defesa excessiva de interesses locais e regionais, podem ser nocivos à saúde pública e, em casos extremos, provocar tragédias.
Falar de centralização é, em essência, falar da colheita dos hábitos médicos: concentrar intervenções permite que equipes acumulem experiência, rotinas sejam afinadas e protocolos aperfeiçoados — como o agricultor que reúne a melhor colheita quando cultiva em solo adequado e com prática. Em termos humanos, trata-se de reduzir a aleatoriedade que pode comprometer o destino de uma criança.
É preciso, contudo, equilibrar a discussão técnica com a sensibilidade social. A questão não é apenas logística, é também ética: como distribuir acesso sem fragmentar a competência. A experiência clínica sugere que centros com maior volume de procedimentos pediátricos tendem a melhores desfechos, mas essa solução exige planejamento, investimentos e, sobretudo, coragem para superar resistências regionais.
O caso de Domenico reacende um debate mais amplo sobre como a Itália organiza cuidados complexos para os seus pacientes mais vulneráveis. Como observador atento das rotinas que moldam a saúde coletiva, fico pensando na respiração da cidade que precisa sincronizar instituições, clínicos e famílias para proteger a vida. Somente assim evitaremos que episódios dolorosos se repitam e transformaremos a experiência em aprendizado duradouro.






















