Por Alessandro Vittorio Romano — Em um estudo que lembra a sutileza de uma paisagem que se redesenha com as estações, pesquisadoras e pesquisadores do IFOM (Istituto di Oncologia Molecolare) da Fondazione AIRC em Milão identificaram um papel central de uma proteína na sobrevivência de células tumorais. A proteína Bace2, encontrada em excesso em diversos tumores sólidos, regula a absorção de lipídios pelas células cancerígenas — e sua inibição surge como uma estratégia promissora contra tumores da pele, do pâncreas e outros tipos de câncer que dependem de gordura para prosperar.
O trabalho, publicado na revista científica Journal of Experimental & Clinical Cancer Research, foi conduzido com uma abordagem multi-ômica, que combina várias camadas de dados para decifrar o metabolismo dos tumores como se lêssemos anéis de crescimento em uma árvore. Entre as protagonistas estão Angela Bachi, diretora do laboratório de proteômica funcional do IFOM e responsável pela unidade de Proteômica & Metabolômica no Cogentech, e Vittoria Matafora, pesquisadora e primeira autora do estudo. A pesquisa foi possível graças ao apoio da Fondazione AIRC, um impulso financeiro que deu voz às evidências emergentes.
Segundo a equipe, a Bace2 atua de modo semelhante a uma “tesoura molecular”, controlando quantos transportadores de lipídios ficam disponíveis na membrana celular e, assim, determinando a quantidade de gorduras que a célula tumoral pode internalizar. Sem um suprimento suficiente de lipídios, muitas células cancerígenas perdem uma das suas fontes vitais de energia e de construção de membranas — o que torna a inibição da Bace2 uma pista terapêutica estimulante.
Como observador sensível aos ritmos do corpo e da cidade, vejo nesta descoberta a imagem de um ciclo interrompido: cortar o fornecimento de combustível equivale a secar a fonte que alimenta o crescimento desordenado. A pesquisa não promete soluções imediatas, mas ilumina uma trilha — especialmente para tumores da pele e do pâncreas, conhecidos por se valer de vias lipídicas — onde a colheita de hábitos terapêuticos pode, no futuro, ser mais eficaz.
É importante frisar que os resultados saem de estudos laboratoriais e moleculares: a translação clínica, isto é, o caminho até tratamentos aprovados e seguros para pacientes, ainda exige etapas longas de testes e validação. Ainda assim, o trabalho abre possibilidades para desenvolver fármacos que bloqueiem a ação da Bace2 ou modularem os transportadores de lipídios nas células tumorais.
Em sintonia com a data em que a descoberta foi divulgada — 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência — a presença de lideranças femininas como Angela Bachi e Vittoria Matafora ressalta não só a qualidade científica, mas também a importância da diversidade na pesquisa. É como se a respiração da cidade nos lembrasse que o pensamento científico se expande melhor quando permite vozes e olhares variados.
Enquanto o horizonte clínico se desenha com cautela, a comunidade científica segue a trilha com atenção, pronta para transformar este fio molecular em esperança palpável para quem enfrenta o câncer. E, como em toda estação de renovação, aprendemos a observar raízes e brotos: compreender o metabolismo tumoral é semear possibilidades de cura.





















