Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma fala que soa como um alarme na paisagem do cuidado oncológico italiano, o presidente da Associazione Italiana di Oncologia Medica (AIOM), Massimo Di Maio, revelou que, nos últimos dez anos, foram eliminados 1.091 leitos públicos em oncologia. Os números desenham um cenário explícito: de 5.234 leitos em 2013 para 4.143 em 2023, uma redução que pesa como pedras no fluxo de quem depende dos cuidados hospitalares.
Falando durante um convegno promovido por ocasião do Dia Mundial contra o Câncer, Di Maio destacou que a crise não se limita ao espaço físico dos hospitais. Cerca de 30% dos centros ainda não oferecem assistência domiciliar oncológica, um serviço que, para muitos pacientes, representa a respiração mais suave da recuperação, longe do ruído e do frio institucional.
Além disso, mais da metade das estruturas (52%) opera sem coordenadores de pesquisa clínica, profissionais essenciais para garantir que ensaios e novas terapias cheguem de forma segura e organizada aos pacientes. Aspectos fundamentais da assistência, como a psicologia clínica e a nutrição clínica, permanecem subótimos em muitas realidades, deixando lacunas na rede que sustenta o corpo e a mente durante o tratamento.
Di Maio também lembrou que não bastam hospitais modernizados e leitos: é preciso mais médicos e enfermeiros. A escassez de especialistas atinge a oncologia, ainda que em grau ligeiramente menor que em outras especialidades, e ameaça a continuidade e a qualidade do cuidado multidisciplinar.
Um convite à territorialidade e à coesão foi outra mensagem clara: é urgente completar, por todo o país, as Redes Oncológicas Regionais (Reti Oncologiche Regionali). Hoje essas redes estão ativas em apenas cerca de metade das regiões — e sem elas, a colaboração multidisciplinar em todo o percurso do paciente permanece fragmentada, como um jardim dividido em parcelas desconectadas, onde cada planta luta isolada contra as mesmas intempéries.
Como observador sensível das interações entre ambiente e bem-estar, vejo nesses números a evidência de um ciclo descompassado: enquanto avançam técnicas e terapias, a infraestrutura e os cuidados integrais parecem sofrer um inverno lento. Recuperar leitos, fortalecer a assistência domiciliar, integrar psicologia e nutrição e consolidar as redes regionais não são apenas políticas de saúde — são a colheita de hábitos e investimentos que devolvem dignidade ao percurso do doente.
O apelo de Di Maio é, portanto, tanto técnico quanto humano: é preciso que a respiração do sistema de saúde volte a ser profunda e contínua, capaz de acompanhar o ritmo íntimo de quem enfrenta o câncer. Sem essa respiração, tratamentos e avanços científicos correm o risco de florescer em terreno seco.
Em tempos em que celebramos a conscientização e a solidariedade do Dia Mundial contra o Câncer, que este diagnóstico sirva de semente para políticas que replantem as raízes do cuidado por toda a Itália.






















