Por Alessandro Vittorio Romano — A Agência Italiana do Farmaco (AIFA) aponta um caminho claro para a medicina do futuro: a prescrittomica, isto é, a prescrição farmacológica orientada por dados clínicos e por informações multi-ômicas do paciente (como o genoma e outros marcadores moleculares), integradas a ferramentas digitais e de inteligência artificial. Em um Position Paper intitulado “Medicina de precisão e appropriatezza della prescrizione farmacologica”, o Tavolo tecnico AIFA — reunindo especialistas da agência, sociedades científicas, ordens profissionais, academia, institutos de pesquisa e associações de pacientes — defende terapias cada vez mais sob medida, especialmente para os mais frágeis.
As estatísticas lembram a urgência: quase 24% da população italiana tem mais de 65 anos. Entre esses, 68% faz uso de pelo menos cinco medicamentos distintos e 28,5% consome dez ou mais. Esse quadro de polimedicação expõe os idosos a maior risco de interações medicamentosas, reações adversas, perda de eficácia e baixa adesão ao tratamento. Para a AIFA, a resposta passa por uma avaliação integrada do binômio “paciente-medicamento”, que considere tanto as características clínicas quanto as informações moleculares.
Nem toda revolução acontece de repente; muitas se parecem com a mudança suave das estações, onde novas ferramentas brotam como folhas. A proposta da prescrittomica combina o conhecimento tradicional do clínico com o poder dos dados: prontuários eletrônicos mais completos, suporte digital à decisão clínica, algoritmos capazes de cruzar sinais clínicos com perfis genéticos, e fluxos de trabalho que preservem privacidade e ética. O objetivo é reduzir prescrições inadequadas e adaptar doses e esquemas terapêuticos ao tempo interno do corpo de cada paciente.
Além da tecnologia, o documento ressalta a necessidade de governança, capacitação profissional e diálogo com os pacientes. Em linguagem sensível ao cotidiano, trata-se de ouvir as raízes do bem‑estar — conhecer rotinas, fragilidades e expectativas — e traduzir esse conhecimento em escolhas terapêuticas seguras e efetivas.
Para os que cuidam dos idosos crônicos em politerapia, essa abordagem promete menos efeitos adversos e mais qualidade de vida. Para o sistema de saúde, abre-se a possibilidade de maior eficiência e de uma colheita de hábitos terapêuticos mais consciente. Ainda que desafios técnicos, éticos e organizacionais persistam, o caminho proposto pela AIFA indica que a prescrição do futuro será um encontro entre a ciência dos dados e a experiência humana do cuidado.
Em tempos de transformação, é reconfortante pensar que a medicina pode aprender a ouvir melhor: não apenas os sintomas, mas o ritmo íntimo do paciente — sua biografia, seu genoma, suas estações. Assim, a receita deixa de ser apenas uma instrução e se torna uma decisão cultivada a partir do solo fértil dos dados e do relacionamento clínico.






















