Valdobbiadene — Entre as colinas declaradas Patrimônio da UNESCO do Prosecco, abre ao público uma coleção permanente dedicada a Little Tony. A Little Tony Collection reúne automóveis históricos, roupas de cena, discos, jukeboxes, fotografias e objetos pessoais que documentam a carreira e a vida do artista. A inauguração está marcada para o dia 1º de março, no interior da galeria de arte do Palazzo Simon Benetton.
O núcleo mais imediato e simbólico da coleção é a Cadillac Eldorado Biarritz de 1959 — o automóvel americano que, relembra o colecionador e curador do acervo, Roberto Valerio, costumava atrair tanto a atenção do público quanto as próprias apresentações do cantor. “Durante o Festival íamos em Sanremo com a nossa Cadillac Eldorado Biarritz do ’59. A gente era fotografado até por quem vinha de Ferrari”, recorda Valerio. Em 2003, quando Little Tony voltou a Sanremo com Bobby Solo, a presença do carro nas imediações do Ariston virou atração.
A exposição não se limita ao veículo. Estão conservados no acervo centenas de 45 rotações, jukeboxes originais, fotos de carreira, instrumentos, cartazes e o smoking usado por Little Tony no Festival de Sanremo — peça que simboliza a presença do artista nas grandes plateias italianas. Há ainda um livro fotográfico de 700 páginas onde o cantor percorre a própria trajetória: “Nesse livro ele cita um único amigo pelo nome: eu”, relata Valerio, apontando o teor afetivo e documental do material.
O projeto nasceu da amizade entre Valerio e Little Tony, estabelecida em 1978 no campo esportivo de Valdobbiadene. “Foi um relacionamento puro”, define o colecionador. Ao longo das décadas, a amizade deu origem a colaborações e atos de generosidade: “Tony fazia centenas de concertos beneficentes, por crianças e comunidades em dificuldade. Era sua natureza”. Parte do acervo foi entregue por Little Tony ao amigo com a condição — implícita e explícita — de preservação e valorização.
Nos planos iniciais, a coleção poderia ter encontrado abrigo em Montebelluna — cidade que concedeu ao cantor a cidadania honorária —, mas não surgiram espaços adequados. “Numa noite acordei às três e pensei: tenho um palácio em Valdobbiadene, por que não fazer lá?”, conta Valerio. Assim, o acervo passa a ocupar a galeria do Palazzo Simon Benetton, criando um diálogo entre arte, moda e espetáculo nas Terras do Prosecco.
Do ponto de vista museográfico, a Little Tony Collection busca oferecer uma leitura factual e cronológica da carreira do artista, sem mitificações: objetos, documentos e registros sonoros serão organizados para permitir ao visitante cruzar datas, turnês e compromissos beneficentes. Valerio salienta que o objetivo é tornar o acervo acessível a todos, perpetuando memórias e funções sociais — a versão material de uma presença artística que, segundo ele, sempre esteve ligada à generosidade.
A abertura ao público no dia 1º de março será também uma forma de reconhecer o papel sociocultural do artista na região e fora dela. Para a comunidade local, a coleção representa uma nova atração cultural, capaz de integrar patrimônio material e narrativa pessoal. A iniciativa promete consolidar Valdobbiadene não apenas como polo enoturístico, mas também como um ponto de interesse para quem pesquisa a história da música italiana do pós‑guerra.
Apuração in loco, cruzamento de fontes e entrevistas diretas sustentam este relatório sobre a inauguração da coleção. A notícia tem relevância documental: preserva fatos brutos sobre a relação entre um artista e seu território, traduzindo a memória em acervo público.
Giulliano Martini — Espresso Italia






















