Muse — o Museu das Ciências de Trento — deslocou uma equipe científica até a costa leste da Groenlândia, em Tasiilaq, para desenvolver um projeto bio-cultural que integra arqueologia, história ambiental e ciências naturais. A iniciativa, iniciada com uma expedição exploratória entre o final de agosto e meados de setembro, busca a valorização de um antigo assentamento inuit de inverno, envolvendo ativamente as comunidades locais.
A expedição inicial foi conduzida por Matilde Peterlini, Chiara Fedrigotti e Mauro Gobbi. Segundo nota oficial do Muse, o trabalho de campo continuará nos próximos meses com um projeto de valorização que tem como objetivo transformar o conhecimento arqueológico em instrumentos úteis para a população local. “Em um Ártico em rápida transformação, uma maior consciência histórica e ambiental pode contribuir para sustentar os processos de autodeterminação e a participação ativa nas decisões futuras”, afirma o museu.
Tasiilaq situa-se na costa oriental da Groenlândia e é o principal centro habitado da região, com cerca de 1.900 habitantes. A área, que inclui mais cinco aldeias e totaliza aproximadamente 3 mil residentes, é marcada por tundra ártica, cadeias montanhosas, fiordes profundos e línguas glaciares que chegam ao mar. A presença humana no território remonta a cerca de 4 mil anos.
Os habitantes locais, denominados Iivit ou Tunumiit, têm provável ascendência na cultura de Thule, que chegou à região entre os séculos XV e XVI. A partir do final do século XIX, as expedições europeias deram início a um processo de colonização dinamarquesa que provocou mudanças culturais e sociais profundas. Somente a partir da segunda metade do século XX se iniciou um processo de autodeterminação, hoje intimamente ligado às pressões ambientais, econômicas e geopolíticas derivadas do mudança climática no Ártico.
A solicitação para a intervenção do Muse chegou em 2024 por meio da The Red House Greenland Foundation, criada pelo explorador Robert Peroni. A fundação tem como objetivo melhorar a qualidade de vida local por meio do desenvolvimento de projetos compartilhados, como a ativação de microeconomias baseadas no conhecimento e na proteção do patrimônio natural e cultural.
Os pesquisadores do Muse sublinham que realizar investigação na Groenlândia exige um cuidado extremo: trata-se de um contexto delicado que exige um abordagem participante e responsável. “A pesquisa deve reconhecer o valor do conhecimento local e construir relações fundadas no diálogo, respeito mútuo e compartilhamento dos objetivos”, afirmam Peterlini, Gobbi e Fedrigotti. Essa metodologia inclui consulta às lideranças locais, envolvimento dos anciãos nas narrativas e ações de co-produção do conhecimento.
O foco do projeto é também social: além da investigação científica estrita, há um esforço explícito em valorizar o papel dos anciãos como guardiões da memória e facilitadores da reconexão entre gerações. A demanda por resgatar e compartilhar saberes tradicionais integra uma estratégia mais ampla de fortalecimento comunitário — que pode incluir, entre outras medidas, iniciativas de educação patrimonial, capacitação local para pesquisa e estímulo a microeconomias culturais.
Do ponto de vista técnico, o projeto propõe o cruzamento de dados arqueológicos com evidências de história ambiental e amostras das ciências naturais para compor um retrato multidisciplinar do passado e das transformações recentes do território. Essa abordagem permite produzir “fatos brutos” analisáveis que embasam decisões futuras sobre uso do solo, gestão de recursos e políticas locais diante do clima em mudança.
Em resumo, a intervenção do Muse em Tasiilaq representa um exemplo de pesquisa aplicada que alia rigor científico e responsabilidade social. A leitura dos dados, combinada com a escuta ativa das comunidades locais e a centralidade do papel dos anciãos, pretende não apenas reconstruir um passado arqueológico, mas fornecer ferramentas para a autodeterminação e a resiliência frente às transformações ambientais.
Apuração in loco, cruzamento de fontes e diálogo contínuo com as populações são, segundo a equipe, o caminho para transformar a investigação em impacto social mensurável. O projeto seguirá em desenvolvimento nos próximos meses, acompanhando de perto as necessidades e prioridades definidas pelas comunidades de Tasiilaq.





















