Por Giulliano Martini — La Via Italia
Em discurso dirigido ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, o Papa Leão XIV alertou para o retrocesso das práticas internacionais que sustentam a paz. Segundo o pontífice, a atual conjuntura registra a crescente fraqueza do multilateralismo e a substituição de uma diplomacia fundada no diálogo por uma diplomacia da força, exercida por Estados isolados ou por grupos de aliados.
“A guerra voltou a ser moda”, afirmou o Papa, descrevendo um “fervor belicista” que se alastra e que quebra um princípio estabelecido após a Segunda Guerra Mundial: a proibição do uso da força para violar fronteiras. No entendimento do pontífice, perdeu-se a percepção da paz como um fim em si mesma; em seu lugar, passa-se a buscá-la “por meio das armas” como condição para impor domínios e interesses.
O discurso tratou também do papel do direito humanitário internacional. Leão XIV enfatizou que seu respeito não pode ficar sujeito a circunstâncias ou a interesses militares e estratégicos. “O direito humanitário, além de garantir um mínimo de humanidade nas chagas da guerra, é um compromisso assumido pelos Estados”, disse o Papa. Para ele, esse direito deve prevalecer sobre as ambições dos beligerantes, tanto para mitigar os efeitos devastadores do conflito quanto para permitir perspectivas de reconstrução.
O pontífice denunciou, em termos claros e técnicos, que a destruição de hospitais, infraestruturas energéticas, habitações e locais essenciais à vida cotidiana configura uma grave violação do direito humanitário. A Santa Sé, afirmou Leão XIV, reitera com firmeza a condenação de qualquer envolvimento de civis em operações militares e sublinha que a defesa da dignidade humana e da sacralidade da vida deve se sobrepor a interesses meramente nacionais.
No segmento voltado às relações bilaterais, o Papa elogiou as “excelentes relações” entre a Santa Sé e a Itália, destacando laços geográficos, históricos e culturais que unem a Igreja ao povo italiano. Citou, como sinais concretos dessa cooperação, a entrada em vigor este ano das alterações ao Acordo sobre a assistência espiritual às Forças Armate italiane e a assinatura do contrato para um complexo agrivoltaico em Santa Maria di Galeria, destinado a fornecer energia elétrica à Cidade do Vaticano.
Leão XIV reafirmou ainda o repúdio categórico a qualquer forma de antissemitismo e a necessidade de aprofundar o diálogo judeu-cristão, recordando os 60 anos do documento Nostra Aetate como marco relevante para as relações inter-religiosas.
Este pronunciamento do Papa insere-se na agenda diplomática vaticana que, em momentos de tensão internacional, busca resgatar a centralidade do direito internacional e o primado da proteção dos civis. Tratou-se de um apelo técnico e de alto nível para que a comunidade internacional reconquiste práticas de cooperação e respeito às normas que estruturam a convivência entre Estados.

























