Por Giulliano Martini — Em mensagem dirigida à Giornata delle Comunicazioni Sociali, o Papa lançou um alerta técnico e antropológico sobre o papel dos meios de comunicação na era digital. Segundo o Pontífice, a informação deve ser tratada como um bem público e não pode ceder à lógica da atenção imediata imposta por plataformas e algoritmos.
O tom do comunicado é direto: menos clickbait e mais qualidade jornalística. As empresas de mídia e comunicação não podem “permitir que algoritmos orientados a vencer a qualquer custo a batalha por alguns segundos a mais de atenção prevaleçam sobre a fidelidade aos valores profissionais, voltados à busca da verdade”. A confiança do público, enfatiza o Papa, conquista‑se por meio da verificação, da transparência e da precisão, não pela perseguição de engajamentos.
Um ponto prático recorrente na mensagem é a necessidade de identificação clara dos conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial. “Os conteúdos gerados ou manipulados pela IA devem ser sinalizados e distinguidos de modo claro dos conteúdos criados por pessoas”, escreve o Pontífice.
O documento aprofunda os riscos da “mancata accuratezza”: sistemas que apresentam uma probabilidade estatística como se fosse conhecimento estão, na verdade, oferecendo aproximações da verdade — e por vezes «alucinações». A ausência de checagem de fontes, combinada com a crise do jornalismo de campo — o trabalho contínuo de coleta e conferência de informações nos locais onde os factos ocorrem —, cria um terreno fértil para a desinformação, alimentando desconfiança, desorientação e insegurança social.
A inteligência artificial, adverte o Papa, não atua apenas nos ecossistemas informativos; ela invade o nível mais profundo da comunicação: as relações entre pessoas. Ao simular vozes, rostos, sabedoria, empatia e responsabilidade, os sistemas de IA perturbam o tecido relacional. “A dificuldade, portanto, não é só tecnológica, mas antropológica”, observa o texto.
O Pontífice condena ainda a lógica que privilegia emoções rápidas em detrimento de expressões humanas que demandam tempo — esforço de compreender, refletir e ponderar. Algoritmos desenhados para maximizar engajamento nas redes sociais, rentáveis para as plataformas, “fecham grupos em bolhas de fácil consenso e indignação fácil”, enfraquecendo a escuta e o pensamento crítico e agravando a polarização social.
Há, finalmente, uma advertência sobre a confiança acrítica na IA como uma “amiga onisciente” — um oráculo de conselhos e memória. Esse tipo de dependência, diz o Papa, pode corroer nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de interpretar significados e de distinguir entre sintaxe e semântica.
Em síntese, o recado é pragmático e normativo ao mesmo tempo: proteger a informação como bem público exige padrões elevados de qualidade, transparência das fontes e rotulação clara de conteúdos assistidos por IA, além de investimentos sustentados no jornalismo de campo e na verificação de fatos. A resposta, conclui a mensagem, passa por recuperar práticas jornalísticas rigorosas e por encarar a questão como um desafio que altera a natureza humana — não apenas um problema técnico.
Apuração, cruzamento de fontes e clareza factual permanecem como antídotos essenciais. A realidade traduzida, sem ruído nem artifício, é o centro do apelo do Vaticano para uma comunicação social que sirva ao interesse público e à verdade.






















