Por Giuseppe Borgo, correspondente de política para Espresso Italia
Nos corredores altos da Lega não está marcada uma simples reunião técnica: desenha-se uma pequena, silenciosa, mas decisiva rearrumação interna. O tema formal será a organização do partido; o tema real é quem ocupará a vaga deixada por Roberto Vannacci na vicesegreteria.
O nome que circula com peso é o de Luca Zaia, o chamado “Doge”: silêncio calculado, observação atenta, medição de forças. Mas Zaia não pretende aceitar um cargo de enfeite. A condição colocada — e conhecida nos bastidores — é cristalina: não quer poltrona decorativa, quer alicerces de poder. Delegas claras, autonomia para manobrar, capacidade real de influir na linha política e no diálogo com os territórios. Em outras palavras: se vier para Roma, quer ferramentas para trabalhar — não um título sem alavancas.
Essa exigência toca diretamente Matteo Salvini. O secretário procura recompor a unidade do partido após meses de turbulência, mas abrir espaço operacional a Zaia implicaria aceitar um contrapeso interno. E contrapesos, na arquitetura organizativa da Lega, sempre foram obra complexa.
Enquanto as negociações se desenrolam, um detalhe de vocabulário falha como um tijolo fora do lugar: a palavra “remigrazione” desapareceu dos documentos preparatórios da reunião. Evaporou. Não parece um acidente. Esse termo virou símbolo da ala mais dura e identitária associada ao período de Vannacci; mantê-lo seria manter viva uma assinatura política que conflita com a imagem administrativa e territorial que Zaia personifica. Se o “Doge” for convidado a entrar, o terreno semântico precisa ser limpo.
Não se trata apenas de semântica. É um sinal sobre o rumo da legenda: continuar a perseguir as palavras de ordem mais extremas ou retornar ao foco em governo local, autonomia, apoio às empresas e ao Norte produtivo. Luca Zaia é a face da segunda opção, e isso explica por que a sua entrada significaria uma reconstrução de prioridades — derrubar barreiras burocráticas simbólicas para erguer uma ponte entre políticas nacionais e necessidades regionais.
Fontes próximas ao governador do Veneto referem que ele já teria deixado claro: prefere nenhum cargo a um cargo vazio. Melhor manter-se com um consenso sólido no Veneto do que aceitar uma vice sem alçadas que permitam pesar nas decisões. A negociação, portanto, é simples na forma e complexa na consequência: Matteo Salvini decide se fortalece o partido com um nome capaz de dialogar com moderados e administrações locais, ou se mantém um centro de comando mais centralizado.
Oficialmente, nega-se que a reunião vá tratar do sucessor de Vannacci — estratégia clássica de desmentido prévio enquanto a decisão não está fechada. Zaia, por sua vez, não demonstra pressa; o relógio joga ao seu favor: quanto maior a necessidade da Lega por estabilidade e credibilidade administrativa, maior será o seu peso.
No fim das contas, a vicesegreteria é apenas o rótulo. A verdadeira disputa é sobre a linha política e os equilíbrios futuros. Se o Doge disser sim, será um sim condicionado. Se as condições não forem aceitas, ficará intacto o consenso territorial que o sustenta — e a penetração do partido nas pautas locais continuará a depender de como Roma aceitará repartir o peso da caneta.
Como repórter atento à construção dos direitos e à ponte entre decisões de Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, observo que o desfecho desta negociação terá impacto prático: define se a Lega optará por políticas centradas na gestão local e no desenvolvimento produtivo, ou se seguirá marcada por slogans que mobilizam uma base mais tensionada. A arquitetura do partido está em obra; os próximos movimentos vão indicar se serão reparos estruturais ou apenas retoques cosméticos.






















