“Sentimos hoje uma responsabilidade histórica: demonstrar que somos uma força de governo capaz de ler o presente para projetar o futuro”. Com essa introdução, Zaia publica no Il Foglio um manifesto de aspiração à liderança do centro-direita, intitulado “appello per una svolta a destra”. O texto é estruturado em cinco pontos cardeais — autonomia, política externa, segurança e ordem pública, direita e liberdade, juventude — e, de forma deliberada, não cita o partido que o projetou politicamente: a Lega.
Ex-ministro e reconfirmado por três mandatos consecutivos como governador do Vêneto, Zaia agora ocupa o cargo de presidente do Conselho Regional do Vêneto. No manifesto, ele usa uma linguagem que se distancia nitidamente da linha mais conservadora e confessional do líder do partido, Salvini, defendendo posições laicas sobre questões sensíveis que, segundo ele, não podem ser reduzidas a dogmas.
Em passagem central do texto, Zaia sustenta que “a direita vencedora é a que é liberal. A que tira liberdades perde” e acrescenta com firmeza que “os temas éticos e civis, do fim de vida, das uniões civis, não podem ser tabus ideológicos”. Para ele, essas questões atingem primeiro a consciência individual antes de qualquer pertença política e exigem regras claras que conciliem liberdade pessoal, responsabilidade coletiva e papel do Estado.
O manifesto também aborda a realidade das novas gerações: sobre os italianos de segunda geração, Zaia observa que hoje as salas de aula refletem uma convivência multicultural e que negar essa realidade não resolve o problema. “A identidade não é um reflexo automático: ensina-se, transmite-se, constrói-se. E se fortalece também no respeito à identidade alheia”, escreve ele, propondo uma gestão inteligente e inclusiva desse fenômeno.
As posições de Zaia geraram reações internas ao espectro da direita italiana. O ex-deputado leghista Paolo Grimoldi, crítico da guinada nacionalista do partido e fundador do movimento Patto per il Nord, definiu o programa como “antitético ao de Matteo Salvini” e questionou se se tratava de um recado interno para promover um debate no partido ou de uma posição pessoal voltada ao próprio futuro político de Zaia.
Do lado mais alinhado à corrente soberanista, o vice-secretário leghista Roberto Vannacci foi direto: declarou não comentar o manifesto, que teria lido “muito, muito superficialmente”, e negou que Zaia seja uma referência para a sua área do partido — “Zaia não é meu benchmark, não é meu ponto de referência”, disse.
O documento de Zaia, em suma, configura-se como uma tentativa de reposicionamento: ao mesmo tempo em que reivindica os valores da direita, aposta numa matriz liberal e laica capaz de dialogar com temas civis sensíveis sem respostas apriorísticas. Resta saber se essa proposta terá desdobramentos internos na Lega ou se permanecerá como um posicionamento pessoal do ex-governador.































