Giuseppe Borgo — Em Roma, o novo capítulo político aberto pelo general Vannacci começa com uma declaração de propósito: ele se proclama porta-voz da verdadeira direita. O gesto, intencional e simbólico, reacende o velho mapa binário da política italiana — a separação clássica entre direita e esquerda — em um momento em que muitos esperavam algo distinto.
O general, autor do ensaio controverso O mundo ao contrário e recém-saído da Lega de Matteo Salvini, insiste que sua nova formação é a alternativa ao que considera um abandono dos princípios conservadores por parte da antiga sigla. Do lado oposto, Salvini acusa Vannacci de traição; resposta em espelho: Vannacci acusa a Lega de ter traído a sua identidade. O resultado é um embate público que, na prática, reitera o teatro das acusações mútuas que domina a política nacional.
A crítica que se impõe, no entanto, é mais estrutural do que pessoal. Observadores e analistas — e eu, como repórter atento ao peso das decisões de Roma sobre a vida quotidiana — sinalizam que a afirmação de ser a verdadeira direita não basta para configurar uma alternativa ao que existe. Vannacci tem histórico de posições liberais e atlantistas, alinhamentos que, segundo críticos, o colocam no mesmo campo das forças que organizam e mantêm o atual desenho do poder econômico e geopolítico.
No estudo «Demofobia», citado por críticos, argumenta-se que a clássica dicotomia ‘direita vs esquerda’ funciona como uma mapa tolemaico: útil aos dominantes para manter o eleitorado orientado dentro de um espaço de disputa que não toca os alicerces da desigualdade. A verdadeira polarização contemporânea, defendem esses estudos, é a que atravessa o alto e o baixo — os dominantes e os dominados — e não apenas rótulos ideológicos.
Para quem acompanha a vida dos cidadãos, imigrantes e ítalo-descendentes, a questão é concreta: a promessa de mudança traduz-se na derrubada de barreiras burocráticas, na construção de direitos tangíveis e na capacidade de alterar estruturas que hoje favorecem quem já tem poder? Ou estamos diante de mais uma variante do que pode ser chamado de Partido Único do capital — rótulos diferentes, arquitetura do mesmo edifício?
Há, ainda, um elemento moral no debate: sentir pena dos que, com boa-fé, apostam na novidade do general como ruptura. Se, como dizem os críticos, Vannacci repete mapas políticos do passado e adere a coordenadas centrais da ordem vigente, então a alternativa prometida se reduz a uma troca de fachadas. Em linguagem de construção cívica, trocam-se ladrilhos, mas mantêm-se os alicerces.
Em suma, a emergência do partido do general Vannacci reabre discussões essenciais sobre representação e sobre quem, de fato, responde aos interesses do povo. É tarefa de jornalistas e cidadania manter a ponte entre as decisões em Roma e o cotidiano das ruas: verificar se há efetiva mudança de projetos ou apenas mais espetáculo de polêmica.
Enquanto isso, os nomes repetidos no cardápio político — de Mario Draghi a Giorgia Meloni, passando por Elly Schlein e Salvini — continuam a ser utilizados como referência na crítica: não apenas como rivais, mas como peças da mesma arquitetura. A pergunta que fica é simples e prática: o peso da caneta e dos votos será usado para reconstruir direitos ou apenas para rearrumar cortes e fachadas?




















