AGI — O dia seguinte à saída de Roberto Vannacci da Lega transformou-se em palco de confrontos verbais entre o general e o líder do partido, Matteo Salvini. Pela manhã, Salvini convocou a imprensa para anunciar a adesão da associação de docentes universitários Lettera 150 à campanha pelo sim no referendo sobre a separação das carreiras, mas não evitou ser questionado sobre o caso Vannacci. O secretário tratou o episódio como um “capítulo fechado” e preferiu enfatizar a agenda do partido para o ano pré-eleitoral.
Ao citar o livro da falecida psicoterapeuta Maria Rita Parsi, “Ingrati”, Salvini tentou reduzir a disputa ao plano pessoal: “Nós temos toda a intenção de preencher com conteúdo o ano que nos espera”, disse, afastando recriminações. Questionado sobre uma eventual substituição de Vannacci — se o vice seria Luca Zaia ou Massimiliano Fedriga — Salvini foi categórico: “Decidete vocês que em dois se jogam a secretaria da Lega? Decidirá o secretário”. O secretário também destacou um crescimento no tesseramento online, “de ontem para hoje superou a marca de mil”.
Salvini recordou que havia apoiado publicamente Vannacci: “Vannacci teve o voto meu, da minha companheira, do meu pai, da minha irmã. Eu fiz campanha por ele, apesar das reservas de alguns”. Ainda assim, manifestou incômodo por ver Vannacci “ocupar um assento no Parlamento Europeu que os eleitores haviam destinado à Lega”.
A resposta de Vannacci veio rápida e sem rodeios. O agora líder do movimento Futuro Nazionale acusou Salvini de ser, na verdade, o “tradidor”: “Não só sobre as armas para a Ucrânia, mas também sobre os princípios de família e sobre a lei Fornero, Salvini é aquele que por anos disse que precisava ser demolida, e depois baixa a cabeça, coloca-se em posição prona numa coalizão que a promove e confirma”.
Vannacci, que em Estrasburgo pretende aderir ao grupo Europa das Nações e das Liberdades / Europe of Sovereign Nations (ESN) — corrente com raízes no AfD — afirmou que não tem intenção de renunciar ao mandato de eurodeputado. Citando a Constituição italiana, artigo 67, sustentou que cada membro do Parlamento representa a nação e exerce suas funções sem vínculos de mandato: “O mandato cabe ao eleito, não ao partido”.
O general anunciou ainda que será presidente do novo agrupamento, enquadrado por ele como “uma direita verdadeira”, com a ambição de fortalecer a coalizão e atrair eleitores que defendam identidade e valores tradicionais. Na mesma jornada, o Futuro Nazionale recebeu o primeiro deputado: o ex-Fratelli d’Italia Emanuele Pozzolo. Espera-se em breve a adesão do leghista Edoardo Ziello, enquanto outros colegas mantêm silêncio.
Como repórter que observa a arquitetura do poder e suas repercussões na vida cotidiana dos cidadãos, vejo nesta disputa uma peça que mexe nos alicerces da direita italiana: não é apenas luta por posições, é disputa sobre quem define o projeto e o caminho da coalizão. A questão do assento no Parlamento Europeu, a invocação da Constituição e as acusações sobre políticas externas e sociais desenham uma obra em construção, na qual cada bloco removido ou assentado altera a estabilidade da estrutura partidária.
Seguiremos acompanhando a evolução desta cisão, com atenção às implicações para os eleitores e para a governabilidade da coalizão conservadora: é preciso traduzir o peso da caneta em decisões que afetem direitos, empregos e a vida comunitária — e informar com clareza quem eriça pontes e quem derruba muros.






















