AGI — O divórcio anunciado entre Roberto Vannacci e a Lega de Matteo Salvini consumou-se em um dia que deixou os corredores de Roma em alerta sobre o seu impacto no centrodestra. A saída do general aposentado, que anuncia hoje a fundação do novo movimento Futuro Nazionale, reacende uma disputa política que pode redesenhar a paisagem eleitoral antes das eleições de 2027.
No interior dos palácios e no Transatlantico, a reação oficial dos partidos — da Lega a Forza Italia e aos Fratelli d’Italia — tenta minimizar o fato. Ainda assim, nos bastidores circulam sondagens que atribuem entre 4,3% e 4,5% de potencial eleitoral ao novo projeto de Vannacci, percentual capaz de forçar reajustes nas estratégias da direita italiana.
Segundo relatos de quem participou da reunião do partido convocada em Milão para tratar de normas sobre sicurezza, o tema da saída foi introduzido por Salvini no final do encontro. O secretário relatou o encontro de ontem em Roma com o general e afirmou ter acelerado o processo de afastamento. Ainda assim, Vannacci manteve a decisão de seguir adiante com a operação política, o que levou à convocação do órgão federal e ao anúncio da fundação do novo partido poucos minutos antes do início da reunião.
Nas palavras do próprio secretário, “eu lhe estendi a mão: nas Europeias lutamos juntos, mas ele não se integrou ao partido, não respeitou as regras e colocou-se fora sozinho”. Entre os presentes, a saída do eurodeputado não surpreendeu: prevaleceu a narrativa de que o ex-vice-secretário se mostrou inaffidabile — um sinal claro de rompimento de confiança.
Durante o debate no federale, as maiores lideranças da Lega intervieram. Para Massimiliano Fedriga, o dia é, paradoxalmente, motivo de “festa”. O chefe do grupo na Câmara, Riccardo Molinari, aconselhou Salvini a usar o momento para se distanciar da extrema-direita e “voltar a fazer a Lega”. Já o ministro da Economia, Giancarlo Giorgetti, participando por videoconferência, sugeriu ver a saída de Vannacci como uma oportunidade: o cargo vago de vice-secretário poderia ser usado para sinalizar o rumo que o partido pretende adotar rumo às eleições nacionais.
Do lado prático, a liderança leghista reconhece que, a partir de agora, terá pela frente uma formação que explorará com liberdade as temáticas da segurança e da immigrazione, sem as amarras de um governo ou responsabilidades ministeriais. Esse fato aumenta a complexidade da “arquitetura do voto” no campo da direita, exigindo dos aliados ajustes na coalizão e possivelmente na comunicação pública.
Resta no ar a pergunta que circula nos corredores: será que o fenômeno Vannacci sustentará a mobilização ao longo de mais de um ano de campanha, até a primavera de 2027, ou se verá rapidamente reduzido a um movimento residual? A resposta dependerá da capacidade do novo partido de construir alicerces eleitorais sólidos, cativar quadros e apresentar uma narrativa que conecte a militância com as demandas reais dos cidadãos sobre segurança e imigração — ou seja, construir uma ponte entre as intenções políticas e a vida concreta da população.
Como repórter que acompanha a arquitetura das decisões em Roma, registro que esta divisão não é apenas uma disputa interna: é uma peça que mexe nos alicerces do centro-direita italiano, forçando escolhas estratégicas que terão efeitos sobre a governabilidade, a composição das coalizões e o mapa eleitoral dos próximos anos.






















