Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia. A manhã em Montecitorio promete ser um teste para os alicerces do debate público e para a arquitetura do voto. Às 11h30 está marcado o convegno intitulado “Remigrazione e riconquista” — apresentação da coleta de assinaturas para uma proposta de lei de iniciativa popular — organizado pelo deputado Domenico Furgiuele e com participação anunciada de representantes da extrema-direita, incluindo CasaPound e Forza Nuova.
As opposizioni vêm protestando há dias e alertam que o evento deve ser bloqueado. No centro do impasse está, porém, um princípio básico: até que ponto a Casa da Câmara pode intervir sobre o conteúdo e os convidados de iniciativas organizadas por parlamentares?
O presidente da Câmara, o leghista Lorenzo Fontana, adotou uma postura pública de contenção. Em declaração oficial, considerou a conferência “inopportuna” e pediu ao deputado que reavaliasse a realização. Fontana reiterou que fez “o que estava ao seu alcance” e lembrou que, historicamente, a responsabilidade pelos conteúdos e convidados das conferências de imprensa cabe aos parlamentares proponentes.
Furgiuele rejeitou o apelo: “Non ritiro l’iniziativa“, afirmou, defendendo o direito dos cidadãos a apresentar uma proposta de lei. “Não entram ‘foras da lei’ na Câmara — apenas cidadãos que querem apresentar uma proposta popular”, disse, acrescentando que não aceitará que se ponham obstáculos ao direito de expressão num espaço público como a Camera. Entre as metáforas da cidadania, Furgiuele invoca a Câmara como um lugar onde o “direito de palavra” deve prevalecer.
Do lado das críticas, o presidente dos deputados da Lega, Riccardo Molinari, também tratou de marcar distância institucional. Molinari ressaltou que “cada deputado é livre de organizar autonomamente um evento sem o consenso do grupo” e observou que a sala utilizada é da Câmara, não do grupo da Lega, limitando sua capacidade de cancelamento. Em resposta à líder do PD, Chiara Braga, que havia pedido intervenção, Molinari rebateu com dureza, lembrando episódios recentes de convites do próprio PD e acusando o adversário de falta de coerência.
Partidos de oposição e movimentos como o M5S e siglas citadas como Avs montaram guardas e enviaram comunicações formais ao presidente da Câmara. O líder do M5S na Câmara, Riccardo Ricciardi, encaminhou carta a Fontana exigindo a exclusão de “personagens vinculados a siglas declaradamente racistas e xenófobas” e definindo como “inconcebível” dar espaço institucional a quem, segundo ele, está associado a práticas de violência política.
Resta a pergunta institucional: bloquear um evento por seu conteúdo é medida proporcional para proteger a dignidade das instituições, ou isso configura um gesto de censura que enfraquece o direito de iniciativa parlamentar? Na prática, a decisão volta ao peso da caneta e à construção da responsabilidade individual dos deputados, deixando claro que a Câmara funciona como uma ponte entre instituições e sociedade — mesmo quando essa ponte ameaça rachar sob o tráfego de controvérsias.
Independentemente do desfecho, a manhã em Montecitorio será um termômetro da capacidade das instituições de conter o ruído político sem derrubar as bases do debate democrático. Estarei em Roma acompanhando os desdobramentos e ouvindo os atores envolvidos para mapear como essa disputa afetará a lei de iniciativa popular e o sentido público da representação.





















