O pronunciamento do procurador de Catânia, Nicola Gratteri, na tarde de ontem incendiou a campanha pelo referendo sobre a justiça e transformou o debate público num confronto direto entre magistratura e altas instâncias políticas. Em termos diretos, Gratteri afirmou que “votarão pelo sim indagados, imputados, massoneria deviata e centri di potere che non avrebbero vita facile con una giustizia efficiente” — uma declaração que serviu como estopim para uma reação em cadeia.
Do lado do poder político, a reação foi imediata e dura. O presidente do Senado, Ignazio La Russa, disse-se “estupefato” com uma afirmação que, segundo ele, ofende milhões de cidadãos e eleva o nível do confronto. O presidente da Câmara, Lorenzo Fontana, manifestou-se “entristecido” e renovou o apelo por um “debate sóbrio e construtivo”.
O episódio atingiu em cheio também o Guardasigilli Carlo Nordio, que declarou-se “consternado” e lançou uma provocação institucional: questionou se o exame psico‑atitudinal hoje preconizado para o ingresso na carreira dos magistrados não deveria ser aplicado também ao final dessa mesma carreira. Já o vice‑primeiro‑ministro Antonio Tajani qualificou a fala de Gratteri como um “inaceitável ataque à liberdade” e alertou para o risco de que ameaças e agressões a opiniões divergentes sejam afrontas ao regime democrático.
Para o líder do Forza Italia, a entrevista do procurador — somada à estratégia comunicativa do Partido Democrático — teria funcionado como “o melhor spot a favor do sim” nas próximas semanas. No plano institucional, o Consiglio Superiore della Magistratura (CSM) abriu uma prática para avaliar eventuais perfis disciplinares, movendo a crise do campo da retórica para a esfera dos procedimentos formais.
Diante da tempestade, Gratteri tentou emendar: afirmou que sua intervenção foi “instrumentalizada e fragmentada” e que, em seu entendimento, votarão pelo sim aqueles para quem o sistema atual é conveniente — sem afirmar que todos os eleitores do sim pertençam a “centros de poder”. Na mesma noite, porém, reafirmou com firmeza sua posição, advertindo que não será silenciado por investigações parlamentares ou procedimentos disciplinares.
No tabuleiro político, a tensão mantém-se elevada. Francesco Lollobrigida anunciou a entrada em cena da primeira‑ministra Giorgia Meloni, enquanto a líder do PD, Elly Schlein, desde Palermo, repete o não a uma magistratura subordinada ao governo. Schlein criticou ainda a proposta do centro‑direita, afirmando que a Itália não quer nem “o modelo Orban” nem o “modelo Trump”, e reafirmou apego aos alicerces da Constituição.
Ao fundo desta disputa institucional, a campanha segue em direção ao voto de meados de março, com iniciativas que vão desde os “trens pelo sim” organizados pelo Forza Italia até os eventos no Campidoglio liderados por Giuseppe Conte. A cena política aparece, assim, como uma obra em construção: cada declaração é um tijolo que pode firmar ou abalar os alicerces do consenso. Em termos práticos, o cidadão fica diante do peso da caneta e da arquitetura do voto — e é essa ponte entre as decisões em Roma e a vida real que está em jogo.
Enquanto o CSM avalia medidas disciplinares e as lideranças políticas se organizam para a reta final da campanha, a principal questão que permanece é como preservar a integridade das instituições sem derrubar, na mesma obra, as liberdades civis fundamentais. É preciso derrubar barreiras burocráticas, não a confiança pública — um desafio que exige transparência, responsabilidade e proporcionalidade tanto de quem governa quanto de quem julga.





















