Na Ginza, bairro mais elegante de Tóquio, a notícia que nos últimos dias levou o índice Nikkei a sucessivos recordes foi recebida com a típica sobriedade japonesa. Para quem passeia pela Chuo-dori, a impressão é de que nada mudou: porém, por trás da aparente calma, há uma movimentação política com impacto concreto no quadro parlamentar e nas relações internacionais.
Ontem a primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou a convocação de eleições antecipadas, a serem realizadas em menos de um ano e meio desde o pleito anterior. A estratégia é clara: aproveitar a onda de popularidade que a acompanha desde que assumiu a Kantei — a residência oficial do primeiro-ministro — e devolver ao seu partido a maioria absoluta no Parlamento.
No momento, a coalizão de Takaichi detém uma maioria apertada na Câmara dos Deputados, sustentada apenas pelo apoio de três parlamentares independentes. No Senado a situação é ainda mais delicada: a coligação está em minoria, o que obriga o governo a negociar cada medida com as oposições. São alicerces frágeis para quem pretende conduzir reformas e políticas de segurança nacional com velocidade.
Andando pela Fifth Avenue local do Japão — a movimentada rua de compras — o repórter ouviu eleitores que, com pragmatismo, depositam confiança na liderança. “Takaichi me agrada”, disse um homem na casa dos cinquenta, em frente a um Starbucks. “É direta, parece sempre saber o que quer. Depois de anos de primeiros-ministros fracos, é uma grande novidade”. Esse apoio pessoal, mais robusto do que o do próprio Liberal Democratic Party (LDP), é um dos recursos políticos de Takaichi.
A comparação com Giorgia Meloni surge natural e inevitável. Ambas são conservadoras e, ao chegarem ao cargo de premières, romperam o teto de vidro de seus países — fato inédito na história política da Itália e do Japão. Compartilham uma abordagem similar em política externa e segurança: Takaichi com uma postura firme diante das ambições chinesas em relação a Taiwan, Meloni com a ênfase italiana no conceito do indo‑Mediterrâneo. As duas mantiveram, e em certos casos ampliaram, seu respaldo popular enquanto governantes.
Hoje Takaichi e Meloni se encontrarão em Tóquio para um encontro bilateral, que também servirá para celebrar os 160 anos das relações diplomáticas entre Japão e Itália — um relacionamento iniciado em 1866, numa época de profundas transformações tecnológicas e comerciais. É significativo que a celebração ocorra na Ginza, local que renasceu das cinzas após um incêndio no período que moldou a modernidade urbana japonesa.
Do ponto de vista da cidadania, esse encontro funciona como uma ponte: reordena prioridades geopolíticas, consolida cadeias estratégicas no Indo-Pacífico e no Mediterrâneo e pode influenciar decisões que chegam ao cotidiano das pessoas — desde segurança marítima até acordos econômicos. É a arquitetura do poder em ação, cujo efeito final se mede no peso da caneta e na solidez dos acordos assinados.
Para o eleitor e para o observador atento, resta acompanhar se a convocação de eleições confirmará a revanche da premiére no Parlamento japonês, e como essa sintonia entre Roma e Tóquio se refletirá em políticas concretas. A política externa, como uma construção de pontes entre nações, volta a ser peça central na narrativa de duas lideranças que, embora diferentes em origens e estilo, revelam-se surpreendentemente semelhantes em objetivos e ambições.





















