Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia — Em um movimento pensado para marcar terreno político, Elly Schlein lançou o manifesto “Verso gli Stati Uniti d’Europa”, lançando uma clara provocação à primeira-ministra Giorgia Meloni sobre o rumo do europeísmo italiano.
A escolha do timing não foi casual. No mesmo horário em que Schlein participava por videoconferência desde Bruxelas da coletiva convocada pelo chefe da delegação do PD, Nicola Zingaretti, a Câmara dos Deputados dava o último ato do embate dentro da maioria sobre o decreto Ucrânia — o dispositivo que confirma os auxílios humanitários e militares italianos a Kiev.
O clima parlamentar vinha se aquecendo desde o proêmio: dois deputados da Lega — Sasso e Ziello — anunciaram saída do grupo e aderiram, ao lado do ex-Fratelli d’Italia Emanuele Pozzolo, a Futuro Nazionale, movimento recém-inaugurado pelo general Roberto Vannacci em sinal de ruptura com a escolha de confirmar o apoio à Ucrânia.
Em plenário foi votada a confiança ao governo e o próprio provvedimento. O PD manteve-se coerente com posições anteriores: após criticar o governo, votou a favor do decreto. Já o Movimento 5 Stelle e o grupo Avs rejeitaram a confiança e o provvedimento, assim como as ordens do dia apresentadas pelos vannacciani, deixando claro que, apesar das críticas ao papel militar, as distâncias políticas são profundas — lembradas pelo ex-primeiro-ministro Conte ao reafirmar que “não temos nada a ver com quem adota posições filorrussas; condenámos desde o início a agressão da Rússia”.
Durante a intervenção por videoconferência, Schlein apresentou um apelo em quatro pontos que, segundo ela, são indispensáveis para que a União Europeia cumpra a promessa de prosperidade às novas gerações: um orçamento europeu mais robusto; uma política externa e de defesa comum; a superação da unanimidade e do poder de veto; e o fortalecimento das formas de cooperação reforçada.
Na acusação direta ao governo, Schlein afirmou que a “extrema direita” nunca acreditou na integração europeia e que as opções recentes — inclusive passos atrás sobre o direito de asilo — são sintoma desse desvio. Também criticou o alinhamento que se forma entre Roma e determinados atores políticos alemães, apontando que esse eixo “vai numa direção que não ajuda a Europa”.
Como contraponto, Schlein defende a via dos investimentos comuns: eurobonds seriam, em sua visão, instrumentos necessários para o relançamento europeu — uma batalha que, recordou, já foi travada na época do governo giallorosso e do presidente do Parlamento David Sassoli.
O tema ganhou eco parlamentar quando o presidente do grupo senatorial do M5S, Stefano Patuanelli, citou declarações do presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, segundo as quais a nova geometria geopolítica exige avaliar a emissão de mais dívida comum para tornar o mercado europeu mais líquido e atrair investidores internacionais.
O episódio é mais uma peça na construção dos alicerces políticos: de um lado, a tentativa do PD de erguer pontes e mecanismos comuns para a Europa; do outro, o jogo de maiorias em Roma, onde o peso da caneta do Executivo e as escolhas de política externa repercutem diretamente na vida dos cidadãos, imigrantes e comunidades ítalo-descendentes que dependem das decisões tomadas tanto em Villa Madama quanto em Bruxelas.





















