Daniela Santanchè, ministra do Turismo da Itália, passou a figurar entre os investigados pela Procuradoria de Milão por suspeita de bancarotta em conexão com o colapso da empresa Bioera, da qual foi presidente até 2021. A nova frente investigativa reacende o debate sobre responsabilidades empresariais e o peso da caneta pública quando ocupantes de cargo ministerial respondem a inquéritos.
O Tribunal de Falências de Milão (Tribunale fallimentare di Milano) havia decretado, em dezembro de 2024, a liquidação judicial da Bioera, uma sociedade por ações no setor de biofood que tinha entre os administradores o ex-companheiro da senadora, Canio Giovanni Mazzaro. A inscrição de Santanchè no registro dos investigados foi feita há algumas semanas, ao longo de um processo conduzido pelos promotores Maria Gravina, Luigi Luzi e Guido Schininnà.
Na decisão que levou à liquidação, o tribunal apontou “uma série de múltiplas criticidades”: a indisponibilidade de recursos suficientes para pagar credores que não aderiram ao plano de reestruturação da dívida proposto pela empresa; a não concretização de um previsto aumento de capital; e a impossibilidade prática de executar uma garantia formalmente existente. Além de Santanchè, outros ex-administradores também são alvo das apurações.
Não é a primeira vez que a ministra aparece em investigações desse tipo: ela já respondia a inquérito por bancarotta no caso do colapso da Ki Group, outra empresa vinculada ao mesmo agrupamento empresarial. Para atores políticos e para a opinião pública, tratados como alicerces na construção de confiança institucional, a sequência de procedimentos judiciais sobre uma autoridade pública representa um elemento de preocupação.
Parlamentares do Partido Democrático reagiram com veemência. Em nota, os membros da comissão de atividades produtivas da Câmara — Alberto Pandolfo, Vinicio Peluffo, Paola De Micheli, Andrea Gnassi e Christian Di Sanzo — classificaram a permanência de uma ministra investigada como “inaceitável” e exigiram que a primeira-ministra Giorgia Meloni peça a renúncia de Santanchè, numa chamada direta a restaurar os alicerces da representação pública.
No outro lado, a defesa da ministra sustenta que a investigação não condiz com a sua efetiva atuação na empresa. O advogado Salvatore Pino, que acompanha Santanchè ao lado de Nicolò Pelanda, afirmou ao AGI que ela exercia a presidência “sem deleghe” desde 2022, não era acionista da sociedade e que as decisões operacionais eram tomadas por outras pessoas. “Não tivemos comunicação, não sabíamos que estava indagada”, declarou Pino, qualificando a situação como uma possível perseguição.
Como repórter atento à arquitetura do voto e à construção de direitos, a questão que fica é prática: como conciliar a função pública com passivos corporativos que emergem de gestões anteriores? A investigação em Milão lança luz sobre a ponte entre responsabilidade privada e autoridade pública — e sobre a necessidade de procedimentos claros para evitar que o peso da caneta de um cargo público seja confundido com impunidade ou, ao contrário, com punição política.
Segue aberto o quadro de apurações. Cabe ao Ministério Público demonstrar, com base em provas robustas, se houve condutas penalmente relevantes por parte dos administradores, inclusive da ex-presidente. Para os cidadãos, resta a expectativa de que o processo esclareça fatos e preserve os direitos de credores e colaboradores prejudicados pela falência.
Palavras-chave na matéria: Daniela Santanchè, bancarotta, Bioera, Tribunal de Falências de Milão, investigada.






















