Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia.
O posicionamento do primeiro‑ministro espanhol Sanchez contra a escalada bélica no Médio Oriente criou uma nova linha de rutura no interior do PD. Para alguns dirigentes da corrente riformista, a intervenção do líder espanhol foi vista como um ponto de referência moral contra o belicismo de direita e do presidente americano Trump. Para outros, invocar vozes externas é sinal de fraqueza política interna.
Na sessão das Câmaras dedicada às resoluções sobre a guerra no Irã, a secretária do PD recordou as palavras de Sanchez: “A posição da Espanha é simples: Não à guerra. Nós pensamos como ele e lhe damos todo o nosso apoio e solidariedade pelas ameaças recebidas do presidente americano apenas por ter defendido o direito internacional”. Esse apelo à solidariedade internacional reacendeu um debate que já fervilhava nas semanas recentes.
Em Roma, os riformisti reuniram‑se num congresso intitulado “Credere in un’Europa protagonista”, organizado por Graziano Delrio. À volta da mesa estavam nomes pesados do riformismo do PD: Lorenzo Guerini, Pina Picierno e, sobretudo, Paolo Gentiloni. O encontro assumiu tom de diagnóstico sobre a “crise de liderança” na Europa e a ausência do velho continente no tabuleiro internacional.
Para Pina Picierno, o momento exige “seriedade e responsabilidade”: “Não me agradou nem o governo — incapaz de ser à altura deste momento dramático — nem a oposição, que invoca Sanchez como se fosse um santo salvador. Temos de parar de invocar o ‘Papa straniero’ e assumir as nossas responsabilidades”. A expressão, carregada de ironia, resume a crítica riformista a uma prática que substitui ação política por devoção externa.
Paolo Gentiloni foi mais ponderado: considerou que a resolução da maioria “não era tão terrível” e defendeu que, quando possível, convergências amplas em matérias de política externa são preferíveis. Ainda assim, Gentiloni sublinhou que dizer simplesmente “não à guerra” não basta e apelou a uma postura europeia mais ativa. Acrescentou que a solidariedade a Sanchez é necessária e criticou a falta de solidariedade de figuras internacionais como Merz no episódio do gabinete oval.
O confronto interno prosseguiu com Peppe Provenzano a insistir num ponto: o texto apresentado pela maioria deixava por escrito o que, na visão dos riformisti, mais importava — a condenação explícita a qualquer ação militar unilateral promovida por Trump — e o que faltava foi justamente essa condenação. “No confronto entre nós há uma voragine com a direita e essa voragine tem nome e sobrenome: Donald Trump“, disse Provenzano.
Na prática parlamentar, os riformisti recusaram a resolução da maioria e optaram por apoiar uma fórmula unitária que agregou o PD a outras forças, numa tentativa de construir um bloco mais amplo em torno da política externa. O ex‑primeiro‑ministro Matteo Renzi, porém, discordou publicamente de Sanchez quando este equiparou o regime teocrático iraniano à administração dos EUA: “Se os coloca no mesmo plano, eu não concordo”, afirmou Renzi.
O episódio expõe mais do que uma disputa partidária: revela fragilidades na arquitetura da política externa europeia e põe em evidência como as decisões de Roma — e as alianças dentro do PD — repercutem na vida real dos cidadãos e nas relações com aliados e rivais. A construção de uma resposta europeia coerente continua a depender da capacidade dos partidos italianos em derrubar barreiras burocráticas internas e agir como ponte entre nações, em vez de procurar pontes fáceis fora das fronteiras.
Conclusão: a linha de política externa do PD permanece em debate aberto. A fragmentação entre quem quer buscar referência em vozes externas e quem pede responsabilidade nacional desenha os alicerces de uma disputa que vai além da retórica — é uma questão de arquitetura de poder e de como o Partido traduz em atos o peso da caneta nas decisões internacionais.




















