Por Otávio Marchesini — Em uma narrativa que mistura diplomacia cultural e paixão esportiva, o rei da Suécia Carlo XVI Gustavo percorreu, entre os dias 13 e 16 de fevereiro de 2026, a Val di Fiemme, acompanhando competições e visitando instituições locais que consolidam uma relação secular entre os países nórdicos e o Trentino.
Não se tratou apenas de presença cerimonial. O monarca assistiu, in loco, a uma storica tripletta feminina no sprint de Tesero — um momento esportivo que, além de resultado, diz muito sobre identidades nacionais e sobre como eventos de alto nível reconfiguram percepções regionais. Durante sua permanência, a delegação sueca contabilizou dois ouros, dois pratas e um bronze, um indicador simbólico do prestígio que a visita trouxe à competição.
As raízes dessa afinidade foram recordadas pelo próprio rei: há décadas, quando perguntado sobre seus atletas prediletos, Carlo XVI Gustavo mencionou nomes como Björn Borg, Sixten Jernberg e Ingemar Stenmark — e, de forma notável, incluiu também Francesco (Franco) Nones. O motivo era direto: Nones, campeão olímpico na prova dos 30 km em Grenoble 1968, representou a quebra de um padrão geográfico, sendo apontado como o primeiro atleta do sul da Europa a derrotar os dominantes fondistas nórdicos. Essa admiração explica episódios como o convite pessoal feito por Nones à família real para os Mundiais de 2003, ocasião em que o rei desembarcou no vale a bordo do helicóptero da Provincia di Trento acompanhado pelo príncipe herdeiro Carl Philip.
O episódio revela também uma dimensão privada e institucional da hospitalidade local: por 36 anos, a família Nones hospedou a seleção norueguesa no hotel Olimpionico, em Castello di Fiemme — um laço que traduz continuidade e cooperação. Já a comitiva real ficou instalada no Bellavista, em Cavalese, na mesma sequência de dias em que autoridades como os prefeitos de Oslo e Trondheim estiveram presentes.
No plano esportivo, a Noruega manteve sua presença de elite no território — a equipe de esqui de fundo escolheu Passo Lavazè como base de treinos, orientada por nomes como Johannes Høsflot Klæbo. A confluência de equipes, mídia e diplomacia cultural fez da Val di Fiemme, temporariamente, um espaço de encontro entre lógicas nacionais de excelência e práticas locais de recepção.
Além das pistas, a visita teve tom cultural: acompanhado por Paolo Gilmozzi, presidente do Apt Fiemme Cembra, o rei percorreu as coleções do Palazzo della Magnifica Comunità di Fiemme — registro reconhecido localmente como passo simbólico, já que Carlo XVI pode ser considerado o primeiro soberano a ingressar naquele palácio. Para concluir a permanência, houve um jantar típico no Maso Battiston, preparado pelo chef Antonio Lepore, gesto de gastronomia que dialoga com a ideia de território e memória.
Mais do que uma curta passagem de Estado, a semana do rei em Val di Fiemme foi uma reafirmação de que o esporte funciona como linguagem — e como território de negociação simbólica — entre regiões e nações. A visita destacou, em poucas horas, como histórias individuais (a de Nones), instituições locais (a Magnifica Comunità) e fenómenos contemporâneos (o domínio nórdico no esqui de fundo) se entrelaçam para contar a imagem de um lugar que é, ao mesmo tempo, cenário e ator no grande teatro das grandes competições de inverno.






















