Por Giuseppe Borgo — Em Roma, no bairro Ostiense, o grupo Costruire l’Alternativa do Partido Democrático reuniu-se nas Industrie Fluviali para traçar a estratégia contra o próximo referendo constitucional marcado para 22 e 23 de março. Para os dirigentes do PD, não se trata apenas de questões técnicas: está em jogo a própria democracia e os alicerces da vida pública italiana.
O pano de fundo do encontro foram as críticas recentes da presidente do Conselho, Giorgia Meloni, à magistratura — em particular sobre a sentença envolvendo a Sea-Watch, qualificada por Meloni como “absurda” e apontada pelo presidente do Senado, Ignazio La Russa, como “abnorme” — e as declarações do ministro da Justiça, Carlo Nordio, que descreveu as correntes da magistratura como “paramafiose”.
Para o ex-ministro da Justiça e figura de peso do PD, Andrea Orlando, as palavras não são mero retórico: “Se se trata de applicazioni abnormi della legge, perché il giorno dopo non partono gli ispettori del ministero per vedere se c’è una applicazione abnorme della legge?” — questionou. A demanda, na visão de Orlando, é pelo uso do “peso da caneta” institucional para verificar fatos, não para inflamar tensões.
O deputado Peppe Provenzano foi mais direto: as declarações de Meloni e Nordio abriram uma “crise institucional”. “Não devemos transformar um referendum costituzionale em uma crise institucional. Isso está acontecendo por culpa da direita”, disse, apontando a combinação entre a reforma constitucional, a reforma do premierato e mudanças na lei eleitoral como uma potencial “slavina institucional” que poderia, ironicamente, facilitar a chegada de Meloni ao Quirinale.
O tom de alarme do PD ecoa a advertência do Presidente da República, Sergio Mattarella, que pediu respeito às altas instituições, em especial ao Consiglio Superiore della Magistratura (CSM). Segundo os democratas, esse apelo foi desconsiderado: imediatamente após o pronunciamento do chefe do Estado, Meloni publicou um vídeo no qual, afirmam, atacou a magistratura e demonstrou “indiferença e hostilidade” em relação ao Presidente.
A deputada Michela Di Biase ressaltou que as palavras de Nordio, ao rotular juízes como “para-mafiosos”, não condizem com uma democracia madura: “Em outros países mais civis, isso teria levado à demissão do ministro da Justiça”. O apelo do PD é simples e direto: “Se quer realmente baixar os tons, peça desculpas”, disse Di Biase, reforçando a necessidade de restaurar o respeito mútuo entre os poderes.
Na mesma linha, o deputado Federico Fornarola advertiu contra a direção que as reformas podem tomar: “Essa reforma está ligada ao premierato. Querem nos levar a Budapeste, cidade bonita, mas eu prefiro Roma e nossa democracia. Orban governa uma democracia iliberal” — afirmou, usando a comparação para alertar sobre o risco de erosão das liberdades civis.
O que se vê nos discursos do PD é a tentativa de erguer uma ponte entre o cidadão e as grandes decisões que saem de Roma: os democratas buscam traduzir em termos práticos o impacto de mudanças institucionais que, em suas palavras, podem derrubar barreiras burocráticas para concentrar poder. A mobilização nas Industrie Fluviali quer ser um alarme e um canteiro de trabalho para construir, com firmeza, os alicerces da lei e da convivência democrática.
À medida que se aproximam as datas do plebiscito, o quadro institucional e retórico continuará a influenciar o debate público. O desafio para quem observa é separar a arquitetura política das intenções — fiscalizar quando a reforma favorece o interesse público e denunciar quando a retórica põe em risco a confiança nas instituições. O PD, por ora, aposta em transformar mobilização em voto e em somar forças para travar o que chama de “slavina Meloni” em direção ao Quirinale.






















