A proposta de reforma constitucional sobre a separação de carreiras, submetida ao voto na primavera de 2026, pode elevar de forma substancial a despesa pública italiana: mais de €114 milhões já no primeiro ano e cerca de €102 milhões anuais no regime, segundo estimativas produzidas por analistas independentes. O dado torna-se ainda mais inquietante quando se constata que o legislador não indicou até agora coberturas financeiras precisas, conforme exige a própria Constituição.
O terceiro parágrafo do artigo 81 da Constituição é taxativo: “qualquer lei que importe novos ou maiores encargos providencie os meios para enfrentá-los”. Em termos práticos, toda reforma que gere despesas adicionais deve também apontar as fontes para financiá-las — um alicerce fiscal que aqui parece frágil.
A reforma, aprovada em votação parlamentar a 30 de outubro de 2025, prevê a criação de dois novos Conselhos superiores da magistratura e de uma Alta Corte disciplinar, ao lado do atual CSM. Trata‑se de uma alteração institucional de grande impacto, mas sem uma estimativa oficial consolidada dos custos de implementação e funcionamento.
Os números comparativos ajudam a compreender a dimensão: o atual funcionamento do CSM está estimado entre €47 e €50 milhões anuais, após os ajustes mais recentes. A criação de três órgãos com funções e estrutura semelhantes tenderia a elevar a despesa para, pelo menos, €141 milhões por ano — um aumento aproximado de €94 milhões em relação ao cenário atual. A diferença entre o custo no primeiro ano e o regime decorre justamente dos custos iniciais de instalação, recrutamento, adaptações de sedes e despesas imobiliárias, que empurrariam o impacto para mais de €114 milhões no primeiro exercício.
Além das verbas ordinárias, há despesas relacionadas a sedes e infraestruturas: novas ou adicionais estruturas administrativas exigiriam investimentos imobiliários e operacionais que ainda não foram quantificados pelo Estado. Esse “peso da caneta” orçamentária, portanto, recaíria diretamente sobre as contas públicas em um momento em que a opinião pública demonstra sensibilidade particular para a gestão fiscal — sobretudo num país com carga tributária entre as mais elevadas da Europa.
Como comparação útil, remonta-se ao referendo constitucional de 2020, quando a redução do número de parlamentares foi vendida à opinião pública como medida de contenção de gastos. Na ocasião, o plebiscito confirmou a reforma com quase 70% dos votos. O benefício estimado foi de cerca de €67 milhões por ano, somando economias diretas e custos operacionais reduzidos. A mudança proposta na justiça produziria exatamente o efeito oposto, acrescentando encargos permanentes ao orçamento público.
Um ponto procedimental recente também reforça a imediaticidade do debate: o TAR do Lácio rejeitou o recurso dos promotores do referendo que pleiteavam alteração da data, confirmando a votação para 22 e 23 de março. Com o calendário eleitoral confirmado, o tema salta do parlamento para a praça pública — e as perguntas sobre financiamento ganham prioridade.
Enquanto a arquitetura institucional se disputa nas esferas legislativa e judicial, os eleitores precisam de informação clara sobre o impacto prático nas finanças públicas. Essa é a função do jornalismo: servir como ponte entre a decisão em Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, traduzindo os números em consequências reais — sejam elas cortes, impostos ou serviços afetados.
A reforma da separação de carreiras pode construir novos alicerces institucionais, mas hoje carece de fundações financeiras visíveis. Derrubar barreiras burocráticas requer planejamento; erguer mais trincheiras administrativas sem financiamento identificado é um risco que o país não pode ignorar.






















