Por Giuseppe Borgo, Espresso Italia — O relógio político acelera em Roma: a poucos dias do referendo marcado para 22 e 23 de março, o Parlamento vira palco de uma corrida de prioridades em que o timing das decisões é quase tão decisivo quanto o conteúdo das leis. Em um cenário em que as sessões plenárias ocorrerão, antes da data referendária, apenas dois ou três dias por semana, vários processos legislativos correm o risco de ficar para depois — um verdadeiro recalque nos alicerces da lei.
Entre os textos já encaminhados, dá-se como certa a conversão em lei do decreto sobre o PNRR e as medidas relativas às bollette na Câmara, enquanto no Senado avança o decreto de segurança. Mas as frentes de confronto multiplicam-se entre maioria e oposição.
Rai e a disputa pelo calendário
Um dos dossiers mais sensíveis é o da Rai. A Comissão di vigilanza marcou para 11 de março a audiência do diretor-geral Giampaolo Rossi. O problema é político: a coalizão de centro-direita está disposta a autorizar a convocação, porém condiciona-a a sua realização apenas após o referendo. O presidente do Senado, Ignazio La Russa, tentou uma mediação, mas o impasse persiste.
Segundo levantamento do Espresso Italia, há a possibilidade de envolver a Giunta per il Regolamento do Senado, órgão previsto pelo regulamento interno, presidido pelo próprio presidente do Senado e composto por representantes proporcionais dos grupos parlamentares — uma manobra que funcionaria como um desvio para contornar o muro contra muro.
Liberdade da mídia e reação da oposição
A oposição não dá trégua. O líder do grupo Democrata no Senado, Francesco Boccia, avisou que, se na próxima terça-feira não houver o Media freedom act em votação, haverá protestos formais em plenário e ações em todos os fóruns possíveis. Do outro lado, Maurizio Gasparri (FI) criticou o tom da reação do PD, defendendo os esforços de conciliação promovidos por La Russa.
Antissemitismo e mudanças no texto
Na Comissão de Assuntos Constitucionais do Senado, começou o exame dos emendamentos ao projeto sobre o antissemitismo. A maioria quer acelerar a tramitação. A base parte do texto do líder da Liga, Massimiliano Romeo, mas Fratelli d’Italia pretende removê-lo de qualquer limitação referente a manifestações consideradas antissemitas durante cortejos. Não está previsto, por ora, aumento de penas na esteira da lei Mancino. As posições permanecem cristalizadas, com a oposição frontalmente contrária ao texto em debate.
DDL estupros, reforma eleitoral e cronograma
A batalha também atinge o ddl sobre estupros — o chamado ddl Bongiorno — com a oposição empenhada em impedir que a Comissão de Assuntos Constitucionais dê parecer favorável. Paralelamente, avançou um acordo de maioria sobre uma reforma da lei eleitoral que poderia valer já para as eleições de 2027. Os sherpas do centro-direita fecharam um “esquema de massima” com pontos abertos, como as preferências, cuja decisão final ficará a cargo dos líderes antes da formalização técnica do texto a ser apresentado ao Parlamento, tudo isso enquanto paira sobre a agenda o referendo sobre a separação das carreiras entre magistrados e procuradores.
O quadro que se desenha é o de um Parlamento que tenta erguer pontes e ao mesmo tempo segura-se de tombar sob o peso da caneta e dos prazos eleitorais. Entre urgências legislativas e disputas políticas, os próximos dias dirão quais projetos vencerão as filas e quais serão empurrados para além do 23 de março — momento decisivo para a arquitetura do voto e para os cidadãos que acompanham a construção de seus direitos.






















