Alessandro Barbero, historiador reconhecido e voz pública no debate cultural italiano, tornou-se protagonista de um paradoxo que aponta diretamente para os alicerces da liberdade de expressão na era digital.
Há poucas semanas, Barbero havia defendido a exclusão da editora Passaggio al bosco da feira literária romana “Più libri più liberi”, posição que justificou como medida contra conteúdos controversos. Agora, o mesmo historiador se vê na outra ponta: teve sua mensagem removida pelo Facebook quando um vídeo em que explicava por que votaria No no referendum sulla giustizia começou a se espalhar nas redes. Antes disso, sua conferência sobre a Rússia também já havia enfrentado bloqueios e restrições de circulação.
O caso revela uma tensão prática entre apoiar mecanismos de controle de conteúdo e experimentar, pessoalmente, as consequências do mesmo aparelho de censura. É um lembrete de que, na arquitetura da convivência pública, quem ergue a mordaça para alguns corre o risco de sentir o peso da caneta sobre si.
Defender ou aceitar a supressão de vozes em nome da correção política cria precedentes perigosos. Como bem assinala a tradição liberal, e como lembraria Spinoza, a democracia se mede pela capacidade de permitir a expressão — mesmo das ideias que nos parecem erradas ou tolas. A experiência de Barbero demonstra, na prática, que abrir a porta à censura é abrir uma janela que pode virar vento contrário.
Do ponto de vista do cidadão comum — imigrantes, ítalo-descendentes, eleitores preocupados com o funcionamento das instituições —, o episódio importa por razões concretas. Quando plataformas privadas assumem o papel de árbitros do discurso público, cria-se uma ponte instável entre o poder regulatório do Estado e o poder discricionário das empresas: um tipo de arquitetura do controle que pouco dialoga com a transparência e com o direito de saber.
Não se trata de romantizar opiniões desinformadas: ideias falsas merecem ser refutadas com argumentos, investigação e educação. Contudo, a prática de “calar” sob o pretexto de preservar a ordem pública tende a derrubar mais do que polêmicas: derruba o debate, fragiliza as instituições e compromete o alicerce da cidadania participativa.
O episódio de Alessandro Barbero é uma lição prática — e uma advertência política. Se queremos construir uma sociedade onde o desacordo se resolva no campo das ideias e não pelo expediente da mordaça, é preciso reavaliar a arquitetura normativa que regula as plataformas e as decisões editoriais. Liberdade de expressão não é sinônimo de ausência de responsabilidade, mas é condição necessária para que a verdade vença no debate público.
Como repórter atento à intersecção entre Roma e a vida real dos cidadãos, observo que a solução passa por regras claras, transparência nas decisões de moderação e mecanismos que permitam recurso, sem transferir totalmente para algoritmos e corporações o poder de definir o aceitável. Só assim construiremos, tijolo a tijolo, uma ponte mais sólida entre instituições e sociedade — uma ponte que proteja o direito de falar e o dever de ouvir.






















