Por Giuseppe Borgo, La Via Italia
Em Palermo persistem dúvidas sobre o destino da lei 3/2024, aquela aprovada pela Assembleia Regional Siciliana (ARS) com a promessa de facilitar o acesso ao emprego público para mulheres vítimas de violência de gênero com deformações ou rosto sfregiado e para os orfãos de feminicídio. A medida apareceu como um alicerce jurídico destinado a derrubar barreiras burocráticas, mas hoje corre o risco de permanecer apenas no papel.
Quem confirma a situação é a deputada do Movimento 5 Stelle, Roberta Schillaci, secretária da Comissão Antimafia e integrante das comissões de Cultura, Formação e Trabalho: “A norma está caducada, conforme a data prevista na própria lei regional”, declarou ao Giornale d’Italia. Em outras palavras: a promessa de uma ponte concreta entre a legislação regional e a vida das vítimas não chegou a sustentar o peso da caneta por mais de 23 meses.
Recapitulando a trajetória legislativa: em 31 de janeiro de 2024 o Parlamento siciliano, com aval do Presidente Renato Schifani, aprovou a proposta subscrita pelo então deputado Ismaele La Vardera (na época em Sud chiama Nord). A intenção declarada era a integração social e ocupacional das vítimas com mecanismos de contratação direta nos órgãos da administração pública regional e nos entes locais. A fórmula se inspirava no artigo 4 da lei 20/1999, que já garantia benefícios a vítimas de máfia e criminalidade organizada.
Depois de celebrações iniciais e manchetes de selo pioneiro — a Sicília autoproclamada “regione garante” de apoio ocupacional às vítimas de violência de gênero — o texto começou a sofrer intervenções. A retroatividade buscada pelo Presidente Schifani, aprovada em 11 de junho de 2025, ampliou o universo potencial de beneficiárias. Porém, pouco tempo depois, um novo emendamento introduzido com o artigo 11 da lei 28/2025 (aprovado em 26 de junho de 2025) estreitou o alcance da norma de forma enigmática: nos casos de feminicídio só um filho seria elegível por núcleo familiar.
Essa limitação levantou questões objetivas: por que uma discriminação de número entre orfandades de feminicídio e as previstas para vítimas de máfia? Com qual critério selecionar um único beneficiário quando existem irmãos? O resultado prático foi uma lei que, fragmentada por emendas e especificações, perdeu corpo e passou a ser difícil de aplicar. “É estranho — comenta Schillaci — que um critério assim não se coloque para filhos de vítimas da máfia”.
O panorama legislativo desenha-se, portanto, como uma construção com paredes faltando: intenções públicas e proclamações institucionais convivem com regras que se contradizem e prazos que expiram antes que os mecanismos operativos sejam efetivamente implementados. Para quem espera da política a tarefa de erguer alicerces de proteção social, a experiência siciliana oferece uma lição sobre como a arquitetura da lei pode colapsar quando as obras administrativas não avançam.
Do ponto de vista prático, ficam perguntas essenciais: quais serviços foram de fato ativados? Quantas supostas beneficiárias conseguiram contratos por chamada direta? Existiu um mapeamento das potencias beneficiárias antes das alterações? Sem respostas claras, a norma correu o risco de funcionar como uma carta morta, apesar de sua retórica assistencial.
Como repórter que busca ser ponte entre as decisões de Roma, as escolhas de Palermo e a vida dos cidadãos, sigo atento a possíveis iniciativas parlamentares. A deputada Schillaci já afirma estar pronta — junto ao M5S e ao gruppo GdI — para propor um novo emendamento que restabeleça a eficácia e a equidade da norma. Caso a correção não seja promovida, o que resta é um exemplo de como promessas legislativas podem se tornar fachadas em vez de instrumentos reais de inclusão.
Em ambiente democrático, a construção de direitos exige não apenas discursos e assinaturas, mas operários administrativos, prazos respeitados e critérios transparentes. É tempo de checar se a lei voltará a cumprir o papel de ligar políticas públicas à proteção concreta das pessoas que mais precisam.






















