Niscemi volta ao centro do debate público após a grande fratura de terreno que hoje atinge cerca de 4 quilômetros. Em pronunciamento ao Senado, o ministro para a Proteção Civil e as políticas do mar, Nello Musumeci, definiu o problema não como uma emergência isolada, mas como um risco estrutural para a Sicília.
Baseando-se nos dados do relatório Ispra de 2024, Musumeci afirmou que “cerca de nove municípios em cada dez na ilha apresentam áreas com alto risco de frana/deslizamento“. A afirmação amplia a visão: não se trata apenas de Niscemi, mas de uma fragilidade difundida na arquitetura do território siciliano — os alicerces para a segurança das comunidades estão comprometidos.
O ministro alertou também que o fenômeno em Niscemi está em constante evolução e tende a um arretramento progressivo, deslocando-se em direção ao centro histórico e ao tecido urbano. “A frana non è ferma” — disse Musumeci — e ressaltou que ainda não há solução definitiva para as famílias obrigadas a abandonar suas casas. A resposta à situação, segundo ele, deve partir das autoridades locais: “i sindaci sono la prima autorità di protezione civile” — os prefeitos detêm a responsabilidade pela planificação e vigilância urbanística.
No pano de fundo do desastre, reaparece uma questão já controversa: o MUOS, a base militar americana al centro de acusações de poluição há mais de uma década. Um documento obtido por veículos locais revela que, em 15 de setembro de 2025, a Regione Siciliana autorizou intervenções de “manutenção straordinaria” no sítio para conter fenômenos erosivos. A sobreposição entre atividades militares, gestão territorial e risco ambiental gera uma nova camada de interrogações — a ponte entre decisões administrativas e impactos reais sobre populações precisa ser examinada.
Musumeci repudiou críticas sobre suposta má gestão do período em que foi presidente da região (2017–2022). Para rebater acusações de negligência, ele destacou que, sob sua presidência, a Região aplicou 90,7% dos 540 milhões de euros disponíveis para medidas de mitigação de riscos. Chamou de “sciacalli” — inclusive entre os “de gravata” — quem, segundo ele, instrumentaliza o drama sem contribuir com soluções.
Do ponto de vista técnico, o ministro ampliou o quadro: o problema se estende além da Sicília. Citou estudos que indicam que mais de 94% dos municípios italianos estão expostos a riscos hidrológicos, avalanches ou erosão costeira. Essa constatação transforma a emergência local numa questão nacional de planejamento urbano e proteção do território. É preciso pensar a reconstrução como uma obra de engenharia social: derrubar as barreiras burocráticas que impedem ações rápidas e consolidar os alicerces da lei para garantir segurança às comunidades.
Como correspondente atento às intersecções entre decisões de Roma e a vida cotidiana, registro que o drama de Niscemi exige respostas técnicas, jurídicas e de política pública. Há famílias sem solução, um centro histórico ameaçado, e uma base cujo papel no equilíbrio territorial permanece controverso. A próxima etapa exige coordenação entre Governo central, Regione e administrações locais, aliado a um cronograma claro de intervenções e transparência sobre a aplicação dos recursos.
Enquanto isso, a fratura continua a se mover. A ponte entre a política e a proteção das pessoas precisa ser reforçada — antes que a próxima casa desabe. Como repórter, continuarei a acompanhar os desdobramentos e a cobrar que a construção de direitos e a proteção civil avancem no mesmo ritmo das promessas.





















