Por Giuseppe Borgo — Em declaração à imprensa à margem da cúpula da UA em Adis Abeba, a presidente do Conselho, Giorgia Meloni, descreveu como “muito complexa” a atual fase das relações internacionais e classificou como “particular” a dinâmica entre a União Europeia e os Estados Unidos. As observações sintetizam uma busca pragmática por equilíbrio entre cooperação e autonomia estratégica.
Comentando o diagnóstico do chanceler alemão Friedrich Merz, que falou em uma possível “fratura” entre Europa e EUA, Meloni afirmou concordar com a avaliação de que a Europa deve empenhar-se mais por si mesma, especialmente no campo da segurança. “Allo stesso tempo”, disse, é imprescindível intensificar a integração transatlântica valorizando o que nos une acima do que nos separa — uma imagem que reforça a ideia de construir pontes, não muros, entre aliados.
Sobre as críticas de Merz à cultura política identificada como ‘MAGA’, a primeira-ministra foi taxativa: “No, direi di no” — ela não compartilha essa leitura. Segundo Meloni, tais avaliações são de natureza partidária e não configuram tema de competência da União Europeia; são, na visão dela, julgamentos políticos que cada líder faz à sua maneira.
Na sua intervenção, Meloni sublinhou a necessidade de a Europa retomar o papel de ator geopolítico autônomo. “A pergunta que devemos nos fazer é o que a Europa precisa fazer para se tornar mais forte, autônoma e capaz de responder a uma nova fase da geopolítica, marcada por incertezas crescentes.” A metáfora é de obra: trata-se de lançar os alicerces de uma política externa que não dependa exclusivamente do que outros façam por nós.
Outro ponto prático anunciado pela premiê foi a participação italiana no Board para Gaza, convocado para 19 de fevereiro em Washington pelo presidente americano Donald Trump. A Itália responderá ao convite como “País observador”, escolha que, segundo Meloni, respeita os perfis de compatibilidade constitucional.
Meloni justificou a presença italiana pela atuação do país na estabilização de uma área descrita como “complexa e frágil”. “Responderemos positivamente ao convite como País observador; resta definir o nível de participação, porque o convite chegou apenas ontem”, explicou. Ela acrescentou esperar que haja participação de outros Estados europeus — sobretudo aqueles do Mediterrâneo e da margem oriental — reforçando a ideia de uma resposta regional que não isole a Europa das discussões sobre o Oriente Médio.
Como repórter que acompanha os alicerces da política externa, vejo neste posicionamento uma tentativa de equilibrar responsabilidade internacional e limites constitucionais: aceitar o papel de observador preserva autonomia interna enquanto permite à Itália manter uma voz na arquitetura das decisões que afetarão civis e migrantes na região. Na prática, é a construção de uma ponte diplomática — firme na forma, cautelosa no conteúdo.
O resultado imediato será conhecido quando for definido o nível e a composição da delegação italiana em Washington. Até lá, permanece o desafio: transformar retórica de autonomia em políticas concretas que confiram à Europa capacidade real de agir sem depender por completo do peso da caneta americana.






















