Giorgia Meloni atravessa uma fase marcada pela palavra “adaptação”. Não é mais tempo de escolhas “musculares” ou de frases gravadas em pedra: a agenda da premiê se fez de nuances, silêncios calibrados e presenças dosadas. Quem acompanha os corredores do poder em Roma diz que, hoje, cada passo de Meloni é pesado como se o terreno pudesse ceder a qualquer momento.
No plano externo, o nome que mais condiciona essa cautela é o de Donald Trump. Em Palazzo Chigi sabem bem que com o tycoon as certezas são provisórias: aliado estratégico num dia, interlocutor espinhoso no seguinte. Daí a necessidade de manter um canal privilegiado com Washington sem, contudo, encurvar o eixo europeu. É uma diplomacia de encaixe, que obriga a premiê a alternar declarações públicas prudentes com mensagens privadas bem mais firmes — um trabalho de cesello diplomático.
O curto-circuito ficou visível quando, a partir de Berlim, Friedrich Merz marcou distância do universo MAGA, apontando divergências culturais entre Europa e Estados Unidos. Em Roma, o tom alemão foi recebido com irritação velada: oficialmente nada de polêmica, nos bastidores clara contrariedade. Cada palavra de Berlim pode estreitar ainda mais o corridoio estreito do poder onde Meloni tenta permanecer central.
No documento mais sensível, o do chamado Board internazionale, a primeira-ministra optou por uma leitura estrita da Constituição, evocando o artigo 11. A alternativa do “observador” nasceu como compromisso técnico e foi desenhada após múltiplas chamadas institucionais — com o Quirinale e o Presidente Sergio Mattarella constantemente informados. Politicamente, porém, a solução é volátil: a oposição fala em ambiguidade; parceiros europeus veem excessiva cautela. É como ajustar os alicerces de uma ponte em construção, com risco de tremores se algo desequilibrar.
Ao mesmo tempo, os sinais vindos dos Estados Unidos permanecem contraditórios. Em Munique, o rosto tranquilizador foi o de Marco Rubio, mais propenso ao diálogo do que em ocasiões anteriores. Mas persiste a incógnita da ala dura, representada por figuras como JD Vance, que no ano anterior já havia provocado tensões entre Europa e Washington. Palazzo Chigi vigia, filtra e seleciona interlocutores: uma operação contínua de filtragem para proteger a posição estratégica da Itália.
Se no exterior reina a cautela, em solo nacional a melodia é outra. O referendo sobre a separazione delle carriere — a separação das carreiras na magistratura — corre o risco de se transformar na personalização que Meloni queria evitar. Nos corredores recorda-se o caso de Matteo Renzi (2016): transformar uma reforma técnica em um voto sobre si próprio pode ser fatal.
Os levantamentos internos mostram um movimento perigoso: o campo do No se consolidou e aposta na mobilização popular. O centro-direita, por sua vez, ameaça permanecer inerte. Aqui reside o desafio doméstico da premiê: abandonar a prudência institucional e assumir a frente política. Não basta o distanciamento técnico do quesito; será necessário colocar a cara, sacudir os eleitores e reescrever o referendo como uma batalha de identidade.
Em caso de derrota, dificilmente se espera demissão. Mas o impacto político pode corroer a imagem de liderança construída até agora, desgastando os alicerces da sua credibilidade e deixando brechas exploráveis pelos adversários. A figura do Presidente Sergio Mattarella, por sua vez, segue sendo vista como estabilizadora — uma espécie de compromisso institucional que ajuda a segurar a travessia em tempos de tempestade.
Como repórter que observa os fios que ligam as decisões de Roma à vida dos cidadãos, afirmo: a atual travessia de Meloni é uma operação arquitetônica delicada. Ela precisa construir pontes entre nações sem derrubar as colunas internas, usando o peso da caneta com precisão. O próximo capítulo dependerá da capacidade de transformar prudência em liderança visível — sob os olhos atentos do eleitorado e das instituições.






















