Roma — Em encontro realizado em Roma, a primeira-ministra Giorgia Meloni e o chanceler Friedrich Merz assinaram um acordo bilateral de defesa e aproveitaram a coletiva para fazer declarações que tocam diretamente a diplomacia europeia e os alicerces constitucionais internos. A reunião, além de consolidar laços de segurança, expôs divergências e preocupações sobre o novo organismo internacional anunciado em Davos: o Board of Peace para Gaza.
A premiê italiana afirmou que, no estado atual, o estatuto do Board of Peace apresenta problemas de compatibilidade com a Constituição italiana. “O Statuto, como nos foi enviado até hoje, seria inconstitucional”, declarou Meloni, segundo apuração. A líder ressaltou ter comunicado pessoalmente o problema ao presidente dos Estados Unidos e pedido que a configuração do organismo fosse reaberta para acomodar as necessidades da Itália e de outros países europeus.
Meloni sublinhou que não se deve adotar uma postura de exclusão imediata: “Nunca se deve optar por autoexcluir‑se a priori”, alertou, abrindo a porta para uma possível adesão caso sejam feitos ajustes no texto fundador. No entendimento da governante, tratar o tema é uma questão de construção de direitos e de respeito às salvaguardas constitucionais — uma espécie de revisão dos alicerces legais antes de aceitar integrar uma nova arquitetura internacional.
Ao mesmo tempo, a primeira‑ministra fez um gesto inesperado que atravessa política externa e simbologia: declarou estar a torcer por Donald Trump para o Nobel para a paz. “Spero che potremo dare il Nobel per la pace a Trump e confido che possa fare la differenza anche sulla pace giusta e duratura per l’Ucraina”, disse ela, acrescentando confiança de que a Itália possa formalizar uma candidatura ao prêmio caso o ex‑presidente americano promova soluções efetivas.
O episódio no Fórum de Davos, onde Trump apresentou e assinou o documento que institui o Board of Peace com cerca de 20 países, foi referenciado com cautela por Meloni. Nos bastidores, o presidente americano afirmou que Roma e Varsóvia desejavam integrar o novo organismo, mesmo após declarações públicas de recusa. A atitude do presidente dos EUA aumentou a pressão diplomática sobre capitais europeias, mas gerou também reações críticas: o chanceler alemão classificou o Board of Peace como, em sua configuração atual, “inaceitável”.
Do ponto de vista italiano, a relutância está enraizada em preocupações legais e políticas. Ao alertar para a possibilidade de reabrir a redação estatutária, a premiê busca equilibrar a vontade de atuar como ponte entre atores internacionais e a obrigação de respeitar a Constituição nacional — um trabalho de alicerce jurídico que, na prática, pode definir se Roma se junta ou não à nova arquitetura proposta.
No mais, o encontro teve também caráter estratégico para a cooperação em defesa entre os dois governos, firmando acordos concretos enquanto discute‑se, nos corredores diplomáticos, o papel da Itália em iniciativas multilaterais emergentes. Para os cidadãos, imigrantes e comunidades ítalo‑descendentes, as decisões que saem desses encontros moldam desde programas de segurança até a capacidade do país de influenciar processos de paz regionais: é o peso da caneta translado à arquitetura do voto e da diplomacia.
Como repórter do Espresso Italia, acompanho com atenção a construção dessas decisões. Quando se trata de paz e Constituição, as alterações não podem ser apenas cosméticas: exigem revisão técnica e política — cópia de segurança para os direitos e para a credibilidade internacional.






















