Roma — Em uma cena que revela a tensão permanente entre o Palácio Chigi e a imprensa, o jornalista Ilario Lombardo, do jornal La Stampa, disse antes de formular sua pergunta à primeira-ministra Giorgia Meloni: “Auspico para este ano um número maior de **conferências de imprensa** deste tipo”. A resposta de Meloni foi imediata e cortante: “Também o desejou no ano passado e não lhe trouxe sorte”.
Outro jornalista presente tentou amenizar com ironia coletiva: “Não é só o Lombardo que o deseja, o desejamos todos”. Lombardo então lembrou o episódio do fora-de-obra na Casa Branca com Donald Trump, quando Meloni teria confidenciado ao presidente americano que não gosta de lidar com jornalistas. “Nós nos apercebemos”, comentou Lombardo, sintetizando a percepção pública sobre a relação da premiê com a mídia.
O episódio ocorreu durante uma longa sessão de perguntas e respostas que durou horas e que a oposição, com o ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte, transformou em plataforma de críticas. Conte publicou nas redes sociais uma leitura ponto a ponto do que chamou das “primeiras sete maravilhas” da conferência — uma desmontagem sistemática das promessas e omissões da chefe de governo.
Na sua crítica, Conte aborda temas centrais que afetam o cotidiano dos cidadãos: economia e mercado de trabalho (recordando os mais de 12 milhões de inativos e a dificuldade dos pensionistas de baixa renda), o custo das contas de energia, a carga tributária que, segundo ele, já bate recordes, e a questão da segurança, onde, diz, faltou autocrítica do Executivo ao responsabilizar juízes e apontar falhas operacionais.
Sobre a Ucrânia, Conte ressalta a mudança de tom: depois de anos em que o governo dizia não negociar com Putin e apostava na vitória militar ucraniana, Meloni agora defende que a Europa deve dialogar com a Rússia. Conte lembra o custo humano e econômico para a Itália — com envio de material militar e sacrifícios — e pede uma explicação pública pela recente abertura ao diálogo.
Também entrou na lista a política externa, com menção direta a figuras como Trump, e as prioridades domésticas: saúde pública (longas filas nos prontos-socorros e aumento de até 6 milhões de italianos que deixam de se tratar) e o crescente investimento em rearmamento, com aumentos previstos que somam bilhões nos próximos anos.
Enquanto a premiê aplica respostas curtas e apelos a intervenções futuras — “faremo”, “interverremo”, “presenteremo” — a oposição e parte da imprensa reclamam de falta de concretude. A cena, em suma, expõe a distância entre o **peso da caneta** no governo e os alicerces da vida cotidiana dos cidadãos.
Como correspondente que busca ser uma ponte entre Roma e as comunidades, registro que a discussão sobre transparência e frequência de coletivas não é um detalhe protocola; é parte da construção de direitos e da responsabilização pública que o eleitor espera. A pergunta de Lombardo e a resposta de Meloni são um espelho: se a arquitetura do diálogo democrático fica por vezes fechada, os cidadãos pagam o custo.




























