Em um encontro que quer traduzir ambição política em projetos palpáveis, a presidente do Conselho, Giorgia Meloni, participa em Adis Abeba do segundo vertice Itália-África, realizado pela primeira vez no continente africano, na sede da União Africana. A reunião, a cerca de dois anos do início operacional do Piano Mattei, serve para aferir a execução dos projetos em 14 países parceiros e para ajustar iniciativas regionais com foco em corridoi energetici, segurança alimentar, água, formação e inovação digital.
O núcleo das discussões é energético. Entre os projetos mais relevantes estão o parque fotovoltaico Abydos II no Egito — 1 GW com sistema de armazenamento —, o interconector elétrico submarino Elmed entre Itália e Tunísia, e o suporte financeiro de 150 milhões de euros ao Quênia para políticas climáticas. Estes investimentos compõem os alicerces de uma verdadeira construção de direitos energéticos que pretende derrubar barreiras burocráticas e criar fluxos estáveis de energia entre as duas margens do Mediterrâneo e além.
No plano regional, o Corridoio de Lobito, ligando Angola, Zâmbia e República Democrática do Congo, é apontado como uma das intervenções de infraestrutura mais significativas, com fundos reservados para torná-lo resiliente às pressões climáticas e econômicas. Paralelamente, a Itália participa da Alliance for Green Infrastructure in Africa e contribuiu para a criação de um fundo especial junto ao Banco Africano de Desenvolvimento destinado a energias renováveis, água e transportes sustentáveis — uma espécie de ponte financeira para projetos de longo prazo.
Ao lado da energia, um eixo estratégico robusto é a agricultura e a soberania alimentar. Previsto está um cofinanciamento de 90 milhões de euros no Senegal, em parceria com o IFAD. Na Costa do Marfim, o apoio italiano foca num polo agroindustrial e no programa de eletrificação NEDA. Na Argélia, avançam projetos de agricultura regenerativa em terrenos semiáridos; em Moçambique, projeta-se um polo agroalimentar na província de Manica. Em escala continental, há um plano de fortalecimento da cadeia do café em cinco países piloto no leste africano — tentativa concreta de ligar produtores locais a mercados sustentáveis.
Formação técnica e saúde completam o quadro: memorandos voltados à educação técnica e à pesquisa foram assinados com Etiópia, Tunísia, Egito, Marrocos e Quênia. Na Etiópia, além de iniciativas para o sistema sanitário, há intervenções em saneamento ambiental e recursos hídricos que prometem melhorar condições básicas de vida e a resiliência das comunidades.
Como repórter atento à intersecção entre decisões de Roma e a vida cotidiana de cidadãos, imigrantes e ítalo-descendentes, vejo este vertice como tentativa de montar uma arquitetura prática de cooperação: não apenas discursos, mas corredores e polos que podem se tornar alicerces econômicos e sociais. Resta observar se o peso da caneta — os compromissos firmados hoje — será seguido por execução eficaz e transparência, de modo que os benefícios cheguem às populações locais e à diáspora.
Do ponto de vista político e prático, o encontro em Adis Abeba representa um passo simbólico e operacional na construção de uma ponte entre nações. A execução desses projetos determinará se o Piano Mattei será lembrado como promissor plano de cooperação ou apenas mais uma intenção diplomática. Como sempre, estaremos acompanhando a evolução dos projetos, cobrando resultados e traduzindo seus efeitos para quem vive no terreno.






















